Manifesto que não manifesta

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Nos últimos anos, poucas vezes me senti tão satisfatoriamente representado quanto na vitória brasileira nas 500 Milhas de Indianápolis, corrida realizada há algumas semanas no autódromo norte-americano. Não sou fã do automobilismo praticado nas terras do tio Sam. Prefiro a Fórmula 1. Não a atual, a antiga, de Emerson Fittipaldi, Piquet e Senna. Tampouco acompanho Hélio Castro Neves, piloto vencedor. Não o conheço bem. Não sei o que fez e deixou de fazer, suas opiniões no Twitter – se é que tem conta – ou se enfrenta processo por dirigir bêbado e atropelar um esquilo. Mas ver um brasileiro ganhar algo importante reacendeu a vontade de torcer, vibrar com a vitória de um conterrâneo, ainda que a primeira entrevista após a prova tenha sido inteiramente em inglês. Dá para entender, a emissora era local. Mas nem uma palavrinha em português? Nem a menção aos seus pais e cidade onde moram? Tudo bem. Em meio à crise patriótica, é o que temos.

A escolha pela torcida no automobilismo possivelmente se justifique pela falta de identificação com o futebol nacional. Está cada vez mais difícil torcer pela seleção brasileira masculina. Estranhamente vestida de azul e branco – talvez com a intenção mostrar aparente neutralidade – contra um Paraguai apenas regular, a expectativa de vitória, na última terça-feira, se confirmou. Mas o jogo não empolgou.

Anos atrás assisti a uma partida do Brasil na companhia de amigos. Dentre eles, um casal cujo namoro ia mal. A partida era boa e a seleção fez um gol. Todos vibramos, animados, ao contrário do casal, cuja celebração se deu por meio de um beijo protocolar. O ligeiro encontro de lábios buscava o último aroma da esperança. Um afago na ideia do que, tempos atrás, representara algo importante. Mais forte, no entanto, era a convicção do afastamento. Sentado no sofá de casa, os gritos de gol contra o Paraguai, na última terça, saíram com a mesma intensidade do beijo daqueles namorados.

Isso porque, mais uma vez, criou-se uma esperança seguida de frustração. Se até meados da semana passada havia chance de rebelião, os jogadores levantando a voz contra a realização da tal Copa América num país de quase 500 mil mortos pela covid-19, anteviu-se, após o afastamento do presidente da CBF, um discurso vazio. Foi como o “depois eu explico” nos relacionamentos amorosos. A explicação vem, mas quando chega está tão fria que não convence ninguém.

Um manifesto que nada manifesta, a não ser a incapacidade de se dizer qualquer coisa relevante. Ou a covardia de jogadores para, ao menos, assumir que pensam antes nos próprios interesses do que na camisa que vestem. A comissão técnica, por sua vez, em meio à possibilidade de jogar no país que enfrenta uma crise sanitária sem precedentes, calou-se. Seja por covardia ou incapacidade, a única certeza é a decepção. “Quando nasce um brasileiro, nasce um torcedor”, diz o início o texto. Tenho a impressão de que a maioria dos brasileiros torcedores possam, quem sabe um dia, voltar a torcer pela seleção. Mas não torcerão pelos jogadores que a integram. O tal manifesto é uma vergonha.

Alguns patrocinadores já se movimentam para impedir a divulgação das suas marcas na competição, ao menos nos veículos brasileiros. Temem o óbvio, ou seja, fotos de jogadores se abraçando, sorridentes, comemorando uma vitória no campo. Ao fundo, a marca da patrocinadora estampada na placa de publicidade. E a manchete da notícia: Meio milhão de mortos.

É de se imaginar como será a comemoração dos jogadores caso vençam a competição. Sorririam na foto, ao lado da taça macabra? Soltariam a voz para gritar “É campeão!”? Brasil, campeão do que? Do número de mortos? Hoje, o país ainda é vice. Mas dá pra ganhar.

Publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores-SP