Copa Desamérica

.

O país se fragmenta. Perde, no futebol, a vida. Quase meio milhão de mortos e comemora-se o quê? A realização do campeonato de seleções americanas no Brasil? Colômbia e Argentina desistiram de sediar a competição. Colombianos, em função dos protestos e violência nas ruas. Argentinos, tomados pelo bom senso, evitam o alastramento da Covid-19 em terras austrais.

Se houvesse algum resquício de respeito aos cidadãos, dirigentes da CBF e Governo Federal jamais considerariam a hipótese da competição em solo nacional. Mas Caboclo e Messias não parecem preocupados com a população dos estados-sede. Recebem a bola quadrada dos vizinhos, matam de canela, driblam a precaução, cravam as chuteiras no peito de torcedores e os empurram às covas.

O Brasil desonra o nome do continente ao qual pertence. À amiga e amigo interessados, uma breve pesquisa no Google mostra que o nome “América”, de origem germânica e gótica, está relacionado às palavras casa, chefia e trabalho. Se fizermos uma enquete, quantos seriam a favor da realização do torneio na nossa casa, tomada por uma pandemia longe de ser controlada? Doença cujo efeito imediato é uma taxa de desemprego recorde no primeiro trimestre de 2021, 14,7%. Ao dar espaço para a realização do evento, a nação envergonha o continente e dele se descola. Queima, com a brasa em seu nome, as fronteiras da civilidade. Desamericaniza-se.

É desumano realizar o evento futebolístico onde dois países americanos – Brasil e Estados Unidos – somam mais de 1 milhão de mortes. Dos quase 3,7 milhões de óbitos provocados pela doença no mundo, 29% estão nas duas nações. Praticamente 1 em cada 3 habitantes do planeta. Melhor esvaziar as bolas, a oval e a quadrada. Lá, ao menos, a idiotice de governantes arrefeceu e a meta é vacinar 70% da população até o dia 4 de julho. Por aqui, a um mês da tal data, pouco mais de 10% estão totalmente imunizados.

Mas o futebol não pode parar, segundo alguns. Já temos o Brasileiro, Copa do Brasil e Libertadores, além de campeonatos regionais de menor expressão. Normalizou-se a doença entre os jogadores e comissões técnicas. As novas variantes do vírus circulam livremente entre os aeroportos e hotéis que hospedam os times, ainda que precárias medidas de segurança sejam aplicadas. Não há motivos, portanto, para acreditar que os mais de 500 integrantes das delegações estrangeiras não serão afetados ao participarem do tal campeonato da morte, nome dado ao evento pelo senador relator da CPI da Covid.

Se realizada a competição, o Brasil se distanciará do seu esporte mais popular. À vista disso, quem ganha com esta aberração esportiva? Emissoras de transmissão, CBF? Certamente. Patrocinadores? Numa época em que a tal copa é questionada por boa parte dos cidadãos consumidores de produtos e serviços, o efeito da exposição das marcas nas transmissões é, no mínimo, questionável. O elenco nacional constituído por “estrangeiros”, mais preocupados com os jogos de seus times europeus do que em vestir a camisa amarela, tampouco ajuda a envolver telespectadores e ouvintes.

A Copa pode ser cancelada e os contratos de patrocínio renegociados. Sob a ótica mercadológica, existe o risco de se pagar por uma divulgação sem retorno financeiro e de construção de marcas. Ou mesmo danos à imagem de empresas percebidas como socialmente responsáveis. A ligação com esporte traz efeitos positivos inegáveis: força, perseverança, superação, entre outros. Mas não quando a competição patrocinada pode tirar milhares de vidas. Estou certo de que marqueteiros e publicitários não querem ver “suas” marcas associadas ao aumento do número de mortos decorrente da Covid-19.

A mais antiga competição futebolística entre seleções não pode acontecer no Brasil. Nem em qualquer outro país americano. Não neste momento.

Publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores-SP