A sociedade justa

Francisco tinha vinte e dois anos. Entusiasmado pela guerra, como todos os rapazes da cidade, seguiu para o campo de batalha à frente de um grupo de lanceiros. Mesmo quando feito prisioneiro, conservou a sua alegria.

Pouco depois de sua volta para casa, uma doença o atacou. Ao olhar da janela de seu quarto de doente, ficava como que em êxtase, vendo que o sol banhava a vida de todas as coisas e todas as pessoas em sua luz. Em curto espaço de tempo, Francisco recuperou de tal maneira a saúde, que pôde retomar a rotina de sua vida anterior: no decorrer do dia, ficava à frente do balcão da loja de seu pai; à noite, juntava-se ao grupo de amigos.

A felicidade que experimentara durante a convalescença estava ausente de sua vida costumeira. A resposta involuntária só veio quando percebeu que a pobreza seria a inseparável companheira para o resto da vida. Certo dia, viu a alguma distância um leproso; mesmo nauseado, continuou a cavalgar em sua direção. Saltou de sua sela, e deu ao leproso todo seu dinheiro. Não sentiu nem aversão nem medo, mas uma felicidade tamanha.

Um dia, aconteceu estar ajoelhado diante do crucifixo do velho sacrácio da igrejinha de São Damião. Em oração, ouviu uma voz : "Francisco, não vês que minha casa está em ruínas. Restaura-a para mim." O poverello passava dias infindáveis, trabalhando duramente para reconstruir. Quando a experiência prática lhe faltava, o entusiasmo e a força de vontade lhe ensinavam o que fazer, pois ambos tinham origem em Deus.

O filho do comerciante rico compreendera a essência de sua vida. Numa época em que as guerras decidiam tudo, na simplicidade de seu coração, Francisco decidiu abrir mão de tudo, realmente escolheu amar o próximo.

Quanto mais a pessoa aprofunda a própria experiência, tanto mais a experiência terá elementos em comum com outras similares. Próximo é aquele de que nos aproximamos, mesmo que nenhum laço nos una a ele. No amor pelos outros, descobrimos uma dimensão transcendente que abrange a realidade. Entre a comunidade abstrata dos homens e a multiplicidade dos destinos individuais, de fato a necessidade tem sempre um rosto.

A sociedade justa se fará de baixo para cima, cada consciência de cada vez, em plena pandemia. A ação humanitária corresponde às exigências de uma moralidade individual, onde uma vida resgatada é justificação suficiente.

Engenheiro, é autor de "Por Inteiro" (Editora, Multifoco, 2019)