O Ardil

Diante de nossos olhos, o mesmo tipo de cegueira descrito em bibliografia sobre a morte da Democracia nas sociedades autoritárias. “Fake news” é codinome de golpe de Estado. Fala-se um novo dialeto em que a mentira, cínica e descarada, se espraia para a alegria dos idiotas, gáudio de insensatos, e como palavras de ordem para fanáticos, seguidores de Antonio Conselheiros redivivos, propagadores de uma fé assassina.

Os exemplos tornam o cotidiano repetitivo, tantas e tão estapafúrdias as mentiras e a hipocrisia, tão poderosos e descarados os mentirosos, tão óbvias as tentativas de absolver o mal e condenar o honesto que a reação do justo oscila entre a revolta e o ódio.

A “fake news” é o novo golpe de Estado. Seu objetivo, seu sujeito oculto aprofunda o ódio de tal forma que se odeia a simples tentativa de diálogo. A muitos interessa a carnificina, como fórmula inquestionável de se chegar ao poder e nele ficar. A qualquer custo. Custe o que custar.

A estratégia não é nem nova nem criativa. Novo é o impasse entre neoliberalismo e Democracia, nesta fase de esgotamento do modelo predador em que a permanência do acúmulo de capital de uns poucos conduz quase automaticamente ao aprofundamento do desnível social, nova forma de submissão ideológica. Lembra, até no estilo “pão e circo”, o totalitarismo pré-segunda Guerra mundial. Os fantasmas de hoje apenas se sofisticam e culpabilizam as religiões, as imigrações, a corrupção como forças exógenas e não endógenas ao modelo predatório incrustado como craca no bojo do sistema econômico.

As “fake news”, o desrespeito intencional às boas normas do convívio social são indispensáveis no movimento subversivo de manter grupos sociais em tensão permanente e, desta forma, impedir a elaboração diagnóstica precisa do câncer a corroer nossas aspirações de viver de forma socialmente gratificante e construtiva.

Neste pandemônio, líderes autocratas encontram campo fértil para saciar instintos primitivos de onipotência sádica e se tornam instrumentais como marionetes, cujos cordões são manipulados por forças não ostensivas e muitas vezes travestidas em defensoras de valores universalmente compartilhados.

É o que explica porque a contaminação pelas “fake news" e pela hipocrisia em geral, de conceitos, como o de liberdade política, seja intencionalmente confusa ou dependente de reformas sociais e econômicas em que o Estado Democrático de Direito e o bem-estar social devam ser frustrados a cada passo e sempre escamoteada a verdadeira razão de manter intocados privilégios de minorias a enriquecer com os desajustes econômicos.

No Brasil, a Constituição de 1988, por privilegiar os direitos da pessoa, salvaguardar o Estado Democrático de Direito, após vinte e cinco anos de esbulho autoritário, transforma-se, à luz dos neoliberais, no totem a ser estraçalhado, sem o que o projeto neo-colonizador sofrerá constrangimentos. Sem pudor algum, aiatolás do neoliberalismo brasileiro, gritam escárnios com a convicção de iluminados. E no Congresso, sob a orientação do ministro da Economia, das Finanças, do Comércio Exterior, do Planejamento e da Indústria e Comércio - Mandarim da Sagrada Congregação do Monte Pelerin - desembocam rações de sobrevivência a serem fatiadas ao povo como manás do bom Alah. E até se cogita privatizar a Eletrobrás ainda que a tarifa de luz seja mais cara para o consumidor. Será o novo botijão de gás. O novo litro da gasolina. A nova inflação dos alimentos.

Toda esta pantomima se esboroa, com Pandemia ou sem ela. Vendedor de ilusões perdidas, nosso Mandarim trata o país como gerente de quitanda e visão de um exército invasor a sucatear despojos de guerra, incomodado com as necessidades básicas de saúde, alimentação, instrução e moradia, além de emprego digno, a quem tem a decência de construir e manter família.

Se parece ao leitor que exagero ou deliro, sugiro uma simples reflexão: por quê uma foto de Lula e FHC, unidos em favor dos direitos democráticos, provoca tanto furor, tanto ódio? Será que quem está com a razão é nosso controvertido ex-ministro da Saúde, mestre da sintaxe “fake news”, quando nos adverte que o que diz o presidente da República em público não deve ser seguido como ordem ou intenção?
Se não fosse “fake”, seria um alívio.

*Embaixador aposentado