Porque existe um jeito certo de fazer as coisas

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Esperar não é algo fácil para ninguém, não é agradável, mais do que isso, não é desejável. Me parece que a geração Z e os intitulados nativos digitais têm um problema ainda maior, no mundo deles não existe espera.

Para os nascidos como eu na década de 70, nós tínhamos que esperar... Esperávamos o sinal do telefone para começar a discar um número (tinha que esperar “dar linha”), esperávamos o computador ligar para entrar o então famoso sistema DOS (a espera superava 2 minutos), esperávamos para ver uma fotografia tirada em um momento especial, a mesma precisava ser revelada e aguardávamos para ver os filmes de 12, 24 ou 36 poses, esperávamos para falar com uma pessoa que estivesse em trânsito, por exemplo de casa para o trabalho, para avisá-la que esqueceu um documento importante em casa, pois os celulares chegaram no início da década de 90, esperávamos para sentar nas “carteiras” das salas de aula, assim que os professores autorizassem, no meu caso após fazer a oração do Pai Nosso, cultura comum para os colégios católicos na época.

E assim aprendemos a esperar. A espera fazia parte do nosso dia a dia e nós sabíamos fazer isso. Hoje não sabemos mais, se uma garçonete nos fizer esperar por um suco de frutas, provavelmente não recomendaremos aquele restaurante. A vida acontece em um clique, ou touch, ou reconhecimento da íris, ou aproximação de cartões, relógios, celulares, ...

Sou uma apaixonada pela tecnologia, o que seria de nós sem ela em meio ao que estamos vivenciando hoje? Minha reflexão não é sobre os benefícios da tecnologia e sim sobre a maneira com que estamos nos relacionando com nós mesmos e com os outros. Esquecemos que esperar faz bem.

Não conseguimos mais esperar o tempo do outro. Não conseguimos esperar o outro entender, chegar na conversa, concordar ou não com o tema, e por aí vai. Não esperamos a resposta do outro e muitas vezes nem a nossa, desconsideramos o intervalo fundamental entre um estímulo e uma resposta, para que possamos demonstrar inteligência e agilidade nos tornamos imediatistas ao extremo.

Amamos o simultâneo, o tempo real, as antecipações. Quem nunca “maratonou” uma série? Na realidade não há nada de mal nisso, só não podemos levar isso para os nossos relacionamentos. O outro não pode ser acessado com um botão e nem pode ser acelerado em função das nossas expectativas e ansiedades.

Hoje pela manhã estava em uma reunião de pais do colégio da minha filha caçula e achei muito interessante quando a professora comentou sobre a dificuldade que as crianças têm de ficar sem fazer nada. Ela enfatizou que as crianças, que têm entre 7 e 8 anos, ficam ansiosas buscando novas atividades e perguntando o que farão ao término da atividade realizada. Sábia e propositalmente a professora as deixa viver um pouco do ócio, tão oportuno para construir relações com os colegas, ter insights e desenvolver a criatividade.

Como seria uma atitude dessa no mundo adulto, e no mundo corporativo? Como encaramos o ócio do outro? Aquela pausa 10h30 da manhã que parece não ter justificativa diante da nossa constante necessidade de explicar tudo, como seus colegas a enxergariam, e o chefe? Você que exerce um cargo de liderança, como reagiria a uma pausa injustificada de um membro da sua equipe?

Colocamos nossos filhos em escolas construtivistas, acreditamos em novos modelos de ensino, modelos onde os alunos saíram do lugar de espectadores e observadores na construção e detenção da informação e se tornaram protagonistas em uma sala de aula onde o aprendizado se dá através de uma troca afetuosa de informação e conhecimento. O aluno e o professor aprendem juntos.

Lembrando que o processo de aprendizado passa pelo que chamamos de equilibração e acomodação, primeiro desequilibra o que existe, equilibra novamente com o novo aprendizado e se solidifica na acomodação. Será que as empresas estão preparadas para esses novos profissionais?

O mundo corporativo está pronto para a chegada em grande escala dos “unicórnios”? E aqui encontramos um outro aspecto, um outro problema dos nossos dias, a necessidade de sermos extraordinários. Todos precisam ser excepcionais o tempo todo.

A questão é que não há lugar para o ordinário, todos precisam ser extraordinários 24/7. Acontece que se o extraordinário ocorrer de forma contínua torna-se ordinário, essa busca vem causando grande ansiedade para que novas maneiras de “construir a roda” ocorram freneticamente.

A inovação é fundamental, vivemos no mundo dos acrônimos VUCA (sigla em inglês para vulnerável, incerto, complexo e ambíguo), BANI (sigla em inglês para frágil, ansioso, não-linear e incompreensível), e muitos outros ainda irão surgir, no entanto o que nos ajudará a permanecer em meio às acelerações, ansiedades quanto à empregabilidade, gestão híbrida, transformação cultural, entre outras, serão comportamentos que expressamos em duas palavras: autenticidade e discernimento.

Precisamos ser autênticos em um mundo acelerado, exigindo de nós reinvenções constantes, e repleto de “receitas de bolo” para o sucesso. A autenticidade vai nos salvar quando atentarmos que assim como o sol nasce e se põe da mesma forma a cada manhã, mas um dia nunca é igual ao outro, nós também somos uma fonte inesgotável de novidades, ainda que façamos todos os dias as mesmas coisas.

Faço um parêntese para frisar os benefícios da rotina, a rotina saudável diminui o stress e a ansiedade, uma vez que a previsibilidade nos ajuda a manter a calma e a serenidade no dia a dia.

Voltando à autenticidade, ser autêntico é permitir que o extraordinário apareça de tempos em tempos, convivendo com a alegria de ser você mesmo, com todas as contribuições que só você pode fazer de um único jeito, o seu!

E, por fim, o discernimento. O discernimento tem vários aspectos, darei ênfase à importância de discernirmos o tempo. Uma das definições para sabedoria é fazer a coisa certa na hora certa.
Melhor do que esperar ou acelerar, é discernir. Como disse o rei Salomão em um dos seus provérbios: “Há um tempo certo para tudo... Há hora de calar e hora de falar, ...há hora de iniciar a guerra e hora de fazer a paz!”

Cristiana Aguiar, Economista, Especialista em Gestão, Fundadora da Jeito Certo Consultoria, membro do Conselho Empresarial de Governança e Compliance da Associação Comercial do Rio de Janeiro – ACRJ.