O que é isso, Bolsonaro?

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No alvorecer dos anos 1980, Fernando Gabeira gozava os louros do seu O que é isso, companheiro?. Na obra, que traz sua visão sobre o sequestro do embaixador Charles Elbrik, dos EUA, Gabeira acerta as contas com o passado e produz um texto confessional, que dá vazão às angústias e idiossincrasias do autor, outrora militante da luta armada. Nem todas as “falas” possuem o tom franco que Gabeira imprime a O que é isso, companheiro?. Na verdade, frequentemente a linguagem possui significados ocultos, cujos sentidos subjacentes não são claros sequer para seus emissores. É o que parece ocorrer com as metáforas amorosas, sexuais e homofóbicas utilizadas por Jair Bolsonaro.

O rol das frases de Bolsonaro no campo da sexualidade é quase infinito. Mesmo quando deputado, o ex-capitão já se permitia dizer coisas como “Eu jamais ia estuprar você, porque você não merece”; ou “Foram quatro homens. Na quinta eu dei uma fraquejada e veio uma mulher”. Mas os holofotes acesos pela conquista da presidência parecem tê-lo inebriado, fazendo aflorar seu subconsciente. São do pós-eleição frases como “Tudo pequenininho aí?"; “Queremos cumprir esse compromisso, mas, como um bom casamento, tem que namorar, ficar noivo”; “Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim”; “Tem que deixar de ser um país de maricas”; e “É pra enfiar no rabo de vocês da imprensa essas latas de leite condensado”. Qual o sentido dessas falas?

Na política, metáforas amorosas, sexuais e homofóbicas podem ter um sentido objetivo. Com elas, Bolsonaro buscaria um diálogo direto com seu eleitorado. Afinal, metáforas “casadoiras” tendem a agradar aos religiosos, assim como frases sexistas e homofóbicas mimam ao público ultraconservador. Do mesmo modo, a menção às dimensões “diminutas” do falo dos asiáticos, ao mesmo tempo em que achincalha os “comunistas” chineses, faz uma brincadeira típica dos “vestiários masculinos”, que agrada aos segmentos sociais que valorizam a masculinidade tóxica e a virilidade de almanaque. Igualmente, há que se considerar que essas metáforas viralizam rapidamente nas redes sociais, animando seu auditório e desviando a atenção da sociedade para as questões que realmente importam, como a morte de mais de 310.000 brasileiros por Covid-19.

Mas é no campo da psicanálise que as frequentes metáforas “sexuais” de Bolsonaro fazem mais sentido. Para Freud, o recalque corresponde a um mecanismo mental de defesa contra ideias incompatíveis com o eu exterior, idealizado. Por isso, as coisas recalcadas por pressões familiares ou sociais aparecem de forma subliminar e, não raro, o indivíduo sequer conhece a linguagem que utiliza para dar vazão ao que reprime.

O episódio do leite condensado “enfiado” no “rabo” dos jornalistas, por exemplo, pode exprimir desejos recalcados, uma fixação anal, fálica, que projete questões possivelmente jamais vividas. Em outras palavras, desejos reprimidos ou mal elaborados muitas vezes afloram na forma de pavor, repulsa ou preconceito, revelando um medo do próprio desejo. Essa dimensão recalcada do ser, associada à misoginia e à homofobia, apontam para o perigo do líder se colocar como espelho.

Como revelam estudos conduzidos pelo filósofo Theodor Adorno, personalidades autoritárias frequentemente possuem uma psique marcada por aspectos libidinais que conjugam dialeticamente arbítrios e preconceitos. De fato, lideranças autoritárias tendem a espelhar aquilo que pregam, visando a moldar a sociedade segundo seus próprios ideais. Em um cenário social propício, essas dimensões profundas e irredentas podem extrapolar as dimensões do ser e pautar práticas sociais marcadas pelo autoritarismo preconceituoso, pervertido, que desumaniza o outro e o faz um inimigo. Que não seja esse o caso do Brasil. Afinal, aqui prevalece o respeito à diferença e à democracia. Não é isso, companheiro?

Lier Pires Ferreira. PhD em Direito. Prof. do IBMEC; CP2. Pesquisador do LEPDESP/UERJ

Renata Medeiros de Araújo. Doutoranda em Psicanálise. Advogada