Naelson Correia Guimarães presente!

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Cem anos do comunista “Seo” Naelson. Peço licença às minhas leitoras e leitores para uma mudança de tema no meu artigo de hoje. No lugar das mulheres de luta que com força e brilho sempre ocupam este espaço, hoje o personagem principal será o meu avô Naelson, incansável guerreiro histórico pela melhoria de vida da população oprimida e esquecida neste país que anda tão doente. E por falar na enfermidade que se espalha pelo nosso território, merece destaque imenso a atuação do “Seo” Naelson na defesa incondicional do Sistema Único de Saúde.

"Sou um defensor intransigente do SUS. Trata-se de uma grande conquista que precisa ser efetivamente implantada, pois sua importância cresce cada vez mais. Com a crise social e econômica que vivemos, há milhões e milhões de pessoas que não têm condições de pagar seguro saúde ou planos de saúde. A única saída para eles está no sistema público de saúde. Nossa maior luta agora é para melhorar o tratamento aos idosos, que continuam sendo vistos não como pessoas, mas como números.” Esta declaração do “Seo” Naelson está no artigo que a jornalista Silvia Maria Teixeira escreveu para o Dossiê de Saúde Pública de 1999, como pesquisadora do Instituto de Saúde da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo na área de saúde coletiva. Não a conheço, mas agradeço por preservar a declaração acima, que ilustra com fidelidade o pensamento do meu avô.

Macaque in the trees
Naelson Correia Guimarães (Foto: Arquivo pessoal)

A luta de Naelson Correia começou no berço, com o enfrentamento do meu bisavô Augusto Correia Guimarães à ditadura de Getúlio Vargas, e nunca mais parou. Adolescente, aos 16 entrou para a juventude do PCdoB, já em busca da justiça social. Por causa da militância, inicialmente do meu bisavô e depois do próprio Naelson, migrou várias vezes entre cidades e estados do nordeste do país. Em uma dessas andanças conheceu a doce e guerreira Letícia Serra Azul, com quem viria a ter oito filhos, 23 netos e mais de uma dezena de bisnetos (perdi a conta!).

No final da década de 50, Naelson mudou-se para o Rio de Janeiro, desta vez casado e com filhos. No estado, atuou como delegado do Sindicato dos Operários Navais, o que o levou a ser perseguido pela ditadura após o golpe militar. Foi julgado em quatro IPMs (Inquérito Policial Militar) e condenado a cinco anos de prisão, em 1969. Quando o seu advogado, Modesto da Silveira, que também defendeu e orientou vários perseguidos políticos à época, sugeriu que deixasse o país, meu avô foi taxativo: “o Brasil é muito grande e posso perfeitamente me esconder aqui dentro”, argumentou, segundo minha mãe, tias e tios nos relataram em incontáveis almoços familiares. Novamente migrou, então para São Paulo, onde viveu na clandestinidade até a anistia, em 1979.

Como lutador incansável pelo fim das desigualdades sociais e pela qualidade dos serviços públicos, tornou-se referência na defesa do SUS, exercendo a função de Conselheiro de Saúde do estado e do município de São Paulo. Em homenagem à sua história e trajetória, a sala de reuniões do Conselho Municipal de Saúde de São Paulo foi batizada com o nome de “Plenário Conselheiro Naelson Correia Guimarães”.

Como avô, “Seo” Naelson ensinou aos filhos e netos a importância de nunca desistir da luta progressista. Imprimiu em todos nós o gosto pela política e pelos debates dialéticos nos almoços e jantares de família. Se a vovó Letícia deixou a lembrança do cheiro do feijão preto mais gostoso do mundo, o vovô Naelson encheu os nossos pulmões com o ar indispensável da política feita com coerência e coragem.

Naelson Correia Guimarães partiu fisicamente em 2013. Mas nunca se afastou do nosso pensamento crítico e escolhas políticas. Hoje ele faz cem anos. Dentro de cada um de nós, dentro do SUS e da luta incansável por um Brasil melhor.

Lidice Leão é jornalista e mestranda em Psicologia Social pela USP, onde pesquisa o sofrimento psíquico da mulher. É pesquisadora do Laboratório de Estudos em Psicanálise e Psicologia Social (LAPSO) da Universidade de São Paulo.



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Naelson Correia Guimarães