O preço da ignorância

Caminhando sobre a lâmina fria da saudade, estico os braços ao abismo a me equilibrar e não cair no esquecimento. Na tentativa de forjar-me criança, volto à praça onde, décadas atrás, um jardineiro colhia mudas de rosas. Não usava luvas, ele, o homem com quem nós, pequenos aprendizes da arte de cuidar das plantas, brincávamos de apertar suas mãos frias e ásperas. Mestre João, era assim que o chamavam nossos pais, com reverência. Ou Mestre Jão, para o caçulinha da turma, um garoto de seus quatro anos de quem todos gostávamos de tomar conta.

Mestre Jão extraía mudas na mão com delicadeza possível somente para dedos extremamente potentes. Se nós sentimos o cheiro das flores, por que elas não sentem o nosso? Tem que tratar as plantas com cuidado. Elas percebem tudo, inclusive o cheiro, ele nos dizia, dando ênfase professoral à palavra “inclusive”. Seus instrumentos de ofício eram poucos: um alicate de pontas cortantes, usado eventualmente nos galhos mais grossos da primavera, um pequeno rastelo e pá do mesmo tamanho e um facão, carregado junto à cintura.

Foi uma vez apenas que vimos o facão sair da bainha para a mão do amigo jardineiro. Estagnados, olhávamos o homem magro, forte e com idade avançada dar pancadas ensurdecedoras num galho mais grosso que corpo de homem. A pedido de uma das nossas mães, Mestre Jão podava a árvore. Terminado o serviço, ele sorriu com ternura e, fitando os nossos pequenos rostos assustados, disse que a poda deixaria a árvore mais forte. Nunca mais o facão se descolou da sua cintura.

Por meio das mãos calejadas e sorriso doce, o amigo jardineiro, ao ensinar a arte de cuidar das plantas, nos mostrou lições valiosas: a força necessária para curar sem machucar, o cuidado e zelo com os instrumentos de trabalho, a observação perspicaz e atenta aos sinais do mundo vegetal e animal. Décadas nos separam do primeiro professor da natureza que tivemos. Tampouco tenho notícias dos pequenos amigos da praça, mas o aprendizado daquelas tardes permanece.

O que mais aprendemos com o mestre jardineiro? Teria ensinado outras crianças, em outras praças? O manuseio do facão na arte pela vida faz falta. E nós, adultos, somos capazes de ensinar nossos filhos, netos, que facões são, antes de armas, instrumentos de cuidar e que exigem cuidado?

Pois que aprendamos a usar lâminas para ceifar discursos belicosos que incentivam crianças e adultos a fazer mau uso de armas. Armas colocadas de modo irresponsável em mãos despreparadas. Em Saudades, no interior de Santa Catarina, e no Brasil. O preço a ser pago pela ignorância do armamentismo é o destempero, raiva e morte. Não podemos permitir que tragédias ocorram por irresponsabilidade. Não agora, nem nunca. Já temos muitas mortes. Mais de 410 mil brasileiros se foram, fruto da ignorância plantada numa terra cultivada com ódio, ganância e desprezo pela vida.
Se em terra boa qualquer coisa dá, temos arrendado a nossa para fazer germinar as piores sementes que a humanidade oferece, a preço de bananinhas. Se esta imensa plantação equatorial der frutos, o que vamos exportar? O que deixaremos às próximas gerações?

O Brasil não é um país iniciante. Tem mais de 500 anos. Não há mais espaço para ações impulsivas, irresponsáveis, destemperadas. Agir com maturidade e inteligência impedirá que representantes mal-intencionados usem nossos recursos para benefício próprio. Impedirá, também, que nossas crianças e adolescentes cresçam se nutrindo do discurso fácil e perigoso da violência.

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Toda força aos familiares e amigos das mulheres e crianças cruelmente vitimadas em Saudades.

Publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores-SP