O Nefasto e seus colaboradores

Esta semana assisti a uma live em que o entrevistado, médico experiente, discursou sobre os efeitos da pandemia na saúde mental dos brasileiros. Ao ver as expressões dos participantes espectadores, tive a sensação não estar sozinho quanto à expectativa de obter algumas dicas com um psiquiatra de renome. O homem estava ali, a pixels de distância. Uma palavra sua e teria a chance de evitar passar vergonha durante a próxima visita do veterinário do meu cachorro, a quem pediria uma receita de tarja preta que diluo no whisky nas piores noites.

Por sorte, não houve perguntas de ordem pessoal e a entrevista fluiu que foi uma beleza. Soubemos que estamos juntos nesta paranoia. Como disse o doutor, todos engordamos, bebemos mais e trabalhamos mais por causa do tal home office. Outro preocupante aspecto abordado na entrevista diz respeito ao esperado aumento de doenças psiquiátricas, bem como um esperado declínio cognitivo nos próximos 10 anos. Sobre esse último ponto, quem tem filhos em idade escolar sabe que aprendizado e aulas online não são coisas necessariamente compatíveis.

Só notícias ruins? Depende. Para os psicólogos e psiquiatras, o mercado de trabalho tende a ser inesgotável – conclusão minha. Basta que esses profissionais mantenham sua saúde mental em dia, o que não é pouca coisa. As indústrias farmacêutica e de bebidas igualmente se beneficiarão. Bebidas, remédios e terapia: que combinação interessante! Tomo remédio para me acalmar, bebo para esquecer e a terapia me desperta e faz lembrar de quem eu sou. Está aí um dilema que a geração pandêmica terá de enfrentar.

O professor doutor também nos deu uma aula sobre as quatro ondas da pandemia, que se sobrepõe em maior ou menor grau. A primeira é a onda do próprio vírus. Segue-se a onda do esgotamento do sistema de saúde, que precede a terceira vaga, a de pessoas com doenças crônicas que, por medo da contaminação, evitam os hospitais. A quarta onda é a psiquiátrica. Ao se sobreporem, pode-se imaginar o tamanho do maremoto. Isso tudo potencializado por um sujeito classificado na live como O Nefasto.
O problema é que o tal Nefasto produz seguidores, que saem pelos corredores do Planalto Central sem máscara espalhando sua virulência perversa acompanhada de truculência, limitação cognitiva e morte. Uma perversidade viral que tem se espalhado rapidamente e matou, até o momento, 400 ml pessoas no Brasil.

Morre-se por causa dessa perversidade. Vejam, por exemplo, o ex-ministro da saúde caminhando tranquilamente e sem máscara no corredor de um shopping em Manaus a espalhar a morte. Ao ser confrontado, ironizou, debochou da saúde do país sob seu cuidado até o início deste ano. Outro, o ainda ministro da economia, deixou a entender, esta semana, que viver mais faz mal para a economia. Se esse ministro tivesse um mínimo de decência, honraria seu raciocínio e daria o exemplo ao eliminar, de modo derradeiro, seu nome dos gastos previdenciários. Mas decência, honra e raciocínio não combinam com os asseclas do presidente.

Na live, fiquei com uma pergunta por fazer: seria a perversidade contaminante, uma doença transmitida pelo ar? Acho que cabe um estudo sobre o assunto. Pois todos que se aproximam do Nefasto se embriagam com seu raciocínio sádico, debochado, descuidado e irascível.

Bem, sou publicitário. Discursar sobre infecção não é o meu forte. Assim, me resta acompanhar a turma do Senado nas investigações sobre as ações do Nefasto e seus colaboradores durante a pandemia. E que a investigação seja breve e a cura rápida. Ou então terei de torcer para que o parasita no Palácio do Planalto acredite nas suas próprias mentiras, tome uma dose extra de ivermectina a se proteger da covid-19 e deixe de espalhar o vírus de uma vez por todas.

Publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores-SP