São Jorge: um símbolo da união da fé

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Hoje é dia de São Jorge, salve! Muito mais que um feriado que permite ao carioca descansar, ir à praia – se não fossem tempos pandêmicos – ou prestar homenagem ao Santo, São Jorge precisa definitivamente ser encarado e entendido como algo muito maior e tão necessário nos dias atuais: uma entidade capaz de romper barreiras, promover o encontro de diferentes povos e credos, como uma força que representa a tolerância às diferenças e união da fé.

Poucos sabem, mas a devoção a São Jorge é compartilhada entre cristianismo, umbanda, candomblé e até mesmo no islamismo. O Santo Guerreiro do catolicismo é também Ogum, orixá das batalhas que movem religiosos das crenças afro-brasileiras. Ele também é reverenciado pelos muçulmanos, que associam sua figura a Al-Khidr, mencionado no Corão como um amigo de Moisés. Assim como aqui no Brasil é comum encontrar a imagem de São Jorge lutando contra um dragão também em igrejas da Cisjordânia e de Israel. Há algo de poderoso em sua figura, ele é capaz de expandir sua existência para além de grupos religiosos e transformar-se em agente do bem, que emana da crença de diferentes povos. É daí, desse caldeirão de paz e amor, que nasce e se perpetua a força do Santo guerreiro, nome mais que justo diante de tamanha responsabilidade na luta pela paz.

Neste dia 23 de abril, data de sua morte, milhões de católicos, umbandistas e outros fiéis se unem para homenageá-lo. A beleza dessa integração é o que marca a diversidade defendida pela Secretaria Municipal de Cidadania do Rio, onde não importa qual a sua crença. Inspirada na figura de São Jorge, o que importa para a Secretaria é o respeito ao credo, que deve prevalecer no empenho para mudar uma triste realidade: o crescimento das denúncias de intolerância religiosa.

Em 2021, vemos alarmados que mais de 90% dos ataques ligados a crimes de sectarismo são destinados aos adeptos das religiões de matrizes africanas. Pensando nisso, estamos criando o Conselho Municipal de Defesa e Promoção da Liberdade Religiosa, que vai trabalhar no desenvolvimento de políticas públicas para incentivar o diálogo entre as diversas religiões que convivem na cidade.

Uma das primeiras ações da recém-criada Secretaria de Cidadania é a realização de um mapeamento para identificar onde estão localizados e quantos terreiros funcionam no município. Com base nos dados, será possível formalizar a existência dos templos, documentá-los e garantir seus direitos como instituição religiosa.

A data de hoje serve para nos lembrar que São Jorge tem o poder de nos unir, por ser apreciado por tantos brasileiros diferentes. Uma curiosidade sobre São Jorge, que pouca gente sabe, é que enquanto no Rio o santo é representado pelo orixá Ogum, na Bahia ele é conhecido como Oxóssi. Isso acontece em razão do sincretismo religioso, que se deu lá atrás no tempo dos nossos antepassados. Os escravizados não podiam expressar a sua fé e foram obrigados a se converterem ao catolicismo. Mas como não queriam abandonar seus orixás, eles simularam a conversão.

Nascido no ano de 275, na antiga região da Capadócia, hoje uma parte da Turquia, São Jorge foi um jovem militar que lutou pelos direitos dos cristãos e contra as injustiças da realeza. Esse espírito de combate e de honestidade se equipara no sincretismo religioso com Ogum.

Na pandemia, as cerimônias em homenagem a São Jorge estão restritas. Ainda que os devotos do Santo não se encontrem nas tradicionais procissões ou festas nos terreiros, no dia 23 eles estão reunidos na fé em oração pelo cavaleiro que dedicou a sua vida a lutar contra as injustiças e pelos direitos dos fiéis. Essa união é o que devemos buscar sempre para garantir o direito individual à escolha da sua crença.

Porque, acima de tudo, é com esse espírito que cariocas, dos mais diferentes credos, devem celebrar o feriado: cada um com sua fé, mas com um único propósito, o de celebrar a vida e o direito à escolha individual.

*Secretário municipal de Cidadania do Rio de Janeiro

 

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