Música, vibração e gritaria. O que parece ser um cenário de pura alegria para muitos, pode ser torturante para outros. Na maioria das festas de rodeio pelo país, o entusiasmo da plateia contrasta com as chocantes cenas de maus-tratos sofridos por bois e cavalos usados nas competições. “Acontecem cerca de 1,5 mil rodeios no Brasil por ano. Desses, entre 800 e mil precisam ser fechados porque os responsáveis não tomam os devidos cuidados”, constata o professor Tenório Vasconcelos, um dos organizadores de um dos mais famosos eventos da modalidade no país - a Festa do Peão de Barretos - e que também é pesquisador da Fundação de Apoio à Pesquisa, Ensino e Extensão da Universidade Estadual Paulista (Funep-Unesp) do campus Jabuticabal.
Um vídeo que circula pela internet, divulgado por defensores da proteção aos animais, comprova os mau-tratos com cenas chocantes, que põem o rodeio na berlinda.
Veja:
A professora de ecologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Alessandra Pellizzaro Bento, que ajudou a divulgar o vídeo, chama de absurdo o que acontece nas competições."Em eventos como esses, os animais são submetidos a uma forte carga de estresse. Eles são nossos ‘parentes’ porque temos carga genética similares. Eu não como carne desde os 10 anos porque, para mim, é praticamente um canibalismo comer carne de porco de boi.”
Questionado sobre as imagens, o professor Tenório denuncia que ainda existem muitas festas no Brasil em que os animais são maltratados. E, apesar da existência de leis sobre o assunto, o professor lista diversas atividades que são prejudiciais para os animais, como a prova do laço (na qual o boi é laçado no pescoço), vaquejada (comum no nordeste do país) e corrida de carroça. “Muitos acham que o dinheiro está acima de qualquer lei. Queremos que tenha esse tipo de evento, mas sem prejuízo aos animais”, lamenta.
Segundo Tenório, todos os animais que são afastados da atividade reprodutora para se dedicar a outras, como os rodeios, são castrados porque o comportamento sexual deles é muito agressivo e pode atrapalhar ou impedir as provas. “Eles têm predisposição para determinadas atividades: não tem consciência, mas tem aptidão”, observa.
Ele explica que na Festa do Peão de Barretos é usada uma corda transpassada que faz cócegas na virilha dos cavalos e bois, chamada de sédem. Com isso, os animais são estimulados a pular durante os oito ou dez minutos que o peão tem para não cair. “Meu papel é saber se estão agredindo ou não o animal.”
Legislação deveria proteger os animais
A Constituição brasileira é uma das poucas no mundo que traz referências sobre o trato adequado de animais. As festas de rodeio são regulamentadas pela Lei nº 10.519/02, que especifica o tratamento adequado para os bois e cavalos que participam do evento. As punições em casos de maus-tratos e abuso contra animais variam de três meses a um ano, entretanto muitas vezes são substituídas por penas alternativas ou pagamento de multas.
Apesar da proteção federal, para Daniel Braga Lourenço, professor de Direito Ambiental da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), a atividade é naturalmente estressante para os animais. Para ele, a prática de rodeio é abusiva porque fere direitos fundamentais como a integridade física. “Não é natural que um animal fique a vida inteira enjaulado para servir de entretenimento para o ser humano. Isso viola a integridade do ser”, afirma.
De acordo com a lei, nessas festas, os animais não podem ser maltratados e os responsáveis devem disponibilizar veterinários para cuidar e tratar dos bichos. Para Lourenço, mesmo as festas que obedecem à regulamentação, exploram os animais. “Eles não foram criados para servir de montaria, de entretenimento. Como é em local onde as pessoas ficam gritando, é estressante para o animal, que fica coagido”, afirma.
Preconceito
O professor de Direito Ambiental também explica que a questão de proteção dos animais ainda é mal vista na sociedade. “Há preconceito por parte do poder público para lidar com a questão, que é vista como de menor importância. As pessoas são ridicularizadas e ficam sem respostas. Os agentes não são preparados e dizem que têm coisas mais sérias para fazer”.
Em alguns estados brasileiros, como Rio de Janeiro e São Paulo, existem projetos para criação de promotorias especializadas em queixas sobre animais. “Há um volume muito grande de denúncias. Nesse caso, caberá ao promotor investigar e denunciar ao poder público”, finaliza.