ASSINE
search button

Livro mostra que brasileiro é hierárquico e não confia nos amigos

Compartilhar

Rodrigo Camarão, Agência JB

RIO - Os 189 milhões de brasileiros podem ser resumidos, basicamente, em dois. Um homem jovem, com nível superior completo, morador de uma capital da Região Sudeste ou Sul e uma mulher, idosa, que não completou o ensino médio e vive em uma cidade do interior do Nordeste. Sozinhos, sintetizam o que há de mais moderno e arcaico do país. Reproduzem os dois Brasis de que falou Jacques Lambert do ponto de vista dos valores. O professor Alberto Carlos Almeida procurou traduzir em números a mentalidade de uma nação no livro A cabeça do brasileiro, que a Record está mandando para as livrarias. Esses dados mostram que o brasileiro, de modo geral, apóia a censura e a tortura, não confia nos amigos e até aceita que um político trate a coisa pública como particular.

A idéia do livro foi tentar demonstrar e descobrir até que ponto a teoria do antropólogo Roberto DaMatta que imortalizou a expressão você sabe com quem está falando? é aplicada no Brasil. DaMatta analisa uma sociedade hierárquica, que lida mal com a igualdade. Para provar a hipótese, a Pesquisa Social Brasileira (Pesb) foi às ruas para dar voz aos diferentes tipos de brasileiro que compõem a sociedade, dividida, em linhas gerais, entre o arcaico e o moderno.

Alberto Carlos Almeida não esconde a admiração por DaMatta que, conforme lembra o sociólogo Gláucio Soares na orelha do livro, é uma autor politicamente incorreto. Almeida chega ao ponto de compará-lo ao francês Alexis de Tocqueville, autor dos clássicos A democracia na América e O antigo regime e a revolução DaMatta é o Tocqueville brasileiro . O elogio não é pequeno.

As tabelas e mais tabelas que ilustram o livro respondem a uma pergunta central: A democracia brasileira perde em qualidade por causa de relações sociais hierárquicas? A resposta é sim. Os desdobramentos mostram que, quanto mais educada é a população, mais igualitária e menos hierárquica ela se torna. Ou seja, quando aquele advogado amigo de um certo figurão da política pergunta ao guardador de carros sabe com quem está falando? , o interlocutor rebate com outra interrogação: Quem você pensa que é? . E os dois estão conversados.

Este é o brasileiro típico, mostram os números: apóia o jeitinho brasileiro, é hierárquico, patrimonialista, fatalista, não confia nos amigos, não tem espírito público, defende a lei do olho por olho, dente por dente , é conservador no campo sexual, defende a intervenção do Estado na economia e apóia a censura. É esta a mentalidade daquela mulher idosa do interior do Nordeste. E é justamente ela que sintetiza a maior parte do país.

No outro extremo da psicologia brasileira está o jovem do Sul ou Sudeste, que tem um diploma de nível universitário. Nisso, o argumento de Robert Dahl em Poliarquia , citado no livro, é confirmado. Quanto mais formalmente educada a população é, maior o desenvolvimento econômico e maior o pluralismo. Criam-se diferentes fontes de poder e de interesse , escreve Alberto Carlos Almeida, que prossegue: A educação tem um forte impacto na sociedade, que , por sua vez, influencia enormemente a política .

Jornalista e professor, Almeida constata que há uma população com escolarização suficientemente elevada para levá-la a lutar por pontos de vista modernos. Mas a maioria da sociedade brasileira, aquela com instrução formal muito baixa ou inexistente, compartilha uma visão de mundo arcaica , capaz de apoiar a expulsão de Larry Rother, repórter do New York Times, depois das insinuações sobre o suposto hábito alcoólico do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ou a tortura. Por exemplo, 51% dos analfabetos acham que a polícia deveria espancar os presos para que eles confessem crimes. Entre a população com nível superior, esse número despenca para 14%.

A Pesb também avalia o caráter extremamente conservador quando o assunto é sexo. Novamente, a divisão criada pela educação faz com que um indivíduo com escolaridade baixa, religioso ou não, se escandalize com a Parada Gay de São Paulo enquanto um cidadão com curso superior não aceita a eleição do ex-deputado federal Severino Cavalcanti (PP-PE) e seu nepotismo para a presidência da Câmara. Há brasileiros e brasileiros.