Economia: 54% culpam Bolsonaro pela crise

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Foto: Folhapress / Sergio Lima
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Desde a decretação da pandemia mundial da Covid-19 pela Organização Mundial da Saúde, em 18 de março de 2020, o presidente Jair Bolsonaro adotou uma postura negacionista. Primeiro, dizia (fazendo eco ao presidente americano Donaldo Trump), que seria uma gripezinha e que era preciso manter a economia funcionando para segurar os empregos. Depois, resistiu às medidas de isolamento e insistiu em ministrar o tratamento precoce liderado pela cloroquina, em vez de se empenhar pelas vacinas, que mostram, tardiamente, a capacidade de frear contágios e reduzir internações e mortes.

Mais de um ano e meio se passou, a Covid-19 já levou quase 600 mil brasileiros para o túmulo. Os Estados Unidos lideram o placar macabro com 700 mil mortos, depois do Brasil, vêm os 488 mil mortos da Rússia, de Vladimir Putin. A Índia, de Narendra Modi, com 1.380 bilhões de habitantes, registra 447 mil mortes. O México, do populista de esquerda Lopes Obrador, tem 384 mil perdas, o Peru tem 199 mil vítimas e o Reino Unido, de Boris Johnson, acumula 161 mil mortos, vindo a Indonésia - 4º país mais populoso do mundo, com 176 milhões de pessoas - a seguir, com 143 mil mortes.

A CPI da Covid no Senado vai compilar os erros do governo e indiciar os responsáveis pela maior tragédia brasileira (em termos de mortes pelo tamanho da população superamos os EUA). Mas a pesquisa Genial/Quaest, realizada de 30 de setembro a 3 de outubro com 2.048 entrevistados em 123 municípios, mostra que o Bolsonaro falhou duplamente ao privilegiar a economia à saúde. Cada entrevistado tinha uma planilha com opções de resposta.

Pois o maior problema do governo, apontado por 44% dos entrevistados, foi a Economia, enquanto apenas 26% atribuíram os maiores problemas à pandemia. A evolução da vacinação, que ganhou tração a partir de agosto, fez a inversão das curvas. Até agosto, 36% viam a Pandemia como o maior problema e 32% a Economia.

 

Macaque in the trees
. (Foto: Genial/Quaest)


Na pesquisa, com margem de erro de 2,2 pontos percentuais, 54% consideram negativo o desempenho do governo de Jair Bolsonaro (eram 48% os que avaliaram negativamente no começo do mês passado, antes das manifestações do 7 de setembro), 24% consideram o desempenho regular e apenas 20% (o menor percentual desde a posse em janeiro de 2019) consideraram o desempenho entre Ótimo e Bom (em julho e agosto 26% aprovavam, enquanto em setembro o percentual caiu para 23%).

Mas se 22% consideram Bolsonaro “totalmente culpado" pela crise da pandemia e outros 22% o acham “muito culpado”, 25% o consideravam “Pouco culpado” e 26% “nenhuma culpa” lhe atribuíam, na economia a avaliação é amplamente ruim.

Nada menos que 29% consideraram o governo Bolsonaro “totalmente culpado” pela crise econômica (desemprego, desorganização da economia e inflação em escalada), outros 25% o consideravam “Muito culpado”, somando 54% de avaliações negativas. Outros 25% consideravam o governo “Pouco culpado” pela crise e apenas 17% eximiam o governo Bolsonaro com “Nenhuma responsabilidade” pela crise.

Na identificação dos problemas do país, a Economia veio em 1º lugar, com 19% das menções, seguido pelo desemprego (de 14 milhões de pessoas) em 2º lugar, com 15% das menções, e a inflação em 3º, com 9% das menções (na sexta-feira, dia 8 de outubro, o IBGE divulga a inflação de setembro, quando a taxa acumula em 12 meses deve passar dos 10%).

Bondade com o chapéu alheio

Na concorrência para ver quem apresenta a proposta mais palatável politicamente para frear a escalada dos preços dos combustíveis derivados de petróleo, os presidentes da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL) e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) se revezam para ver quem faz mais demagogia e propõe benesses aos consumidores com o chapéu alheio.

Na linha de distribuir mais valores do Auxílio Emergencial (atualmente de R$ 250 mensais) a mais brasileiros pendurando mais gente na sacola do Bolsa Família, com a nova estampa de Auxílio Brasil, para servir de outdoor eleitoral em 2022, ambos sugerem dar um calote parcial nos precatórios de famílias e empresas que já tiveram ganho de causa na Justiça contra o Estado brasileiro.

Mas isso é pouco. O povão está inquieto com a escalada dos combustíveis, em especial o gás de botijão GLP), a gasolina e o diesel. Lira fez uma proposta complicada de retroagir a cobrança do ICMS dos estados para uma média de preços de dois anos atrás (em 2020 o petróleo caiu mais de 40%, mas esse ano subiu 60%, pressão amplificada pela desvalorização do real diante do dólar). Muito confuso de aplicar e ser compreendido.

Lira, que é de uma família de usineiros de Alagoas, esqueceu de bolar algo para baratear os preços do etanol (que entram com 27% na mistura da gasolina) e ajudam a empurrar para cima os preços nas bombas de abastecimento.

Mas Rodrigo Pacheco, aproveitando a proposta da Petrobras de destinar subsídios de R$ 300 milhões para subsidiar o gás de botijão (que tem nas comunidades carentes os milicianos e traficantes como os intermediários finais, que dificilmente vão aliviar os consumidores), quer que a estatal amplie o leque de subsídios para mais combustíveis, alegando que ela “é uma empresa do povo”.

“O petróleo ainda é nosso?”

Já foi longe o tempo da campanha do “Petróleo é Nosso”, que levou à criação da Petrobrás (então com acento) no governo Getúlio Vargas, em 1953, num projeto de lei de autoria do deputado udenista Afonso Arinos (MG). O monopólio já foi flexibilizado e a Petrobras, além de perder o acento, só tem 50,50% das ações ordinárias com direito a voto (ONs) em mãos do Tesouro Nacional e do BNDES (que praticamente liquidou sua posição no governo Bolsonaro). Outros investidores brasileiros (fundos de pensão e grandes empresários, como J.J. Abdalla) tinham 10,18% do capital votante em agosto. Os estrangeiros não residentes não residentes têm 39,32% das ações com direito a voto e outros 5,29% estão pulverizados no mercado.

Quando se considera o capital total (ações ONs e PNs, sem direito a voto) a posição do governo caiu ainda mais, para 36,75%, ou seja, pouco mais de um terço do capital. A maior fatia, de 42,18%, está nas mãos dos investidores não residentes. Os brasileiros identificados detêm 21,07% e outros 11,12% estão pulverizados.

Então, lembrando Garrincha, quando o Brasil foi enfrentar a então União Soviética na Copa do Mundo da Suécia, em 1958 (Mané entrou em campo com Pelé e arrebentou, com 2 x 0, gols de Vavá), “já combinaram com os russos”? Completo: e com os americanos, chineses, ingleses e os investidores brasileiros que camuflam seus capitais no exterior, abrindo empresas “off-shore” para movimentar recursos em moeda estrangeira à margem da lupa do Fisco, como fizeram no passado o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, que só declaram anualmente à Receita o que têm lá fora.

Dificilmente uma proposta distributiva da Petrobras, que pode reduzir os lucros e os dividendos a serem distribuídos aos acionistas vai passar sem chiadeira.

Devido aos pesados prejuízos com as baixas contábeis de projetos que se revelaram inviáveis, a Petrobras ficou vários anos no prejuízo e sem distribuir lucros aos acionistas. Este ano vai pagar R$ 31,9 bilhões de dividendos aos acionistas. Dois terços já foram pagos no 1º semestre e R$ 10 bilhões serão pagos em dezembro.

Se depender de Guedes...
Mas se depender de Paulo Guedes, se o presidente Bolsonaro vencer a corrida eleitoral em outubro de 2022 e ganhar um novo mandato de quatro anos, a União perde de vez o controle da Petrobras e do Banco do Brasil, que seriam privatizados, como propôs para a Eletrobrás este ano.

O problema é que tendo Guedes como lastro, identificado pela pesquisa como o responsável pelo X do problema do atual governo, a Economia, para ter alguma chance, não será surpresa se Jair Bolsonaro descartar do Posto Ipiranga.

VEJA AQUI O RESULTADO COMPLETO DA PESQUISA

 



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