Um pária em Nova Iorque

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Há pouco menos de um ano, no dia 22 de outubro de 2020, o então ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, em discurso para turma de formandos do Instituto Rio Branco, a escola de diplomacia do Itamaraty, fez o elogio da marginalidade brasileira no concerto das nações. E arrematou para futuros diplomatas atônitos: "Sim, o Brasil hoje fala de liberdade através do mundo. Se isso faz de nós um pária internacional, então que sejamos esse pária", destacou o chanceler, que acrescentou: "é bom ser pária".

Pária do Itamaraty desde fins de março, quando sua destituição foi exigida pelo Senado Federal, após audiência desastrosa na Comissão de Relações Exteriores, Araújo, que jamais exerceu o cargo de embaixador, se demitiu oficialmente em 29 de março deste ano, sendo substituído por Carlos França. Embora também não tenha ascendido a embaixador (era chefe do cerimonial da Presidência da República), França devolveu um mínimo de dignidade à diplomacia brasileira.

Mas seu chefe, o presidente da República Jair Messias Bolsonaro renovou, em sua visita a Nova Iorque, onde, como é tradicional desde 1955, o Brasil faz o discurso inaugural do novo ano da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, o certificado de que o Brasil virou o pária internacional.

O papelão desempenhado por Bolsonaro na reunião do G-20, onde era o único Chefe de Estado que fez questão de declarar não ter sido vacinado contra a Covid-19 por “já estar vacinado com o próprio vírus”, pespegou em sua testa o certificado de “convidado bem trapalhão”.

No encontro bilateral que teve com o primeiro ministro do Reino Unido, Boris Johnson - o único relevante em seu limitado giro por Nova Iorque, onde o próprio prefeito Bill de Blasio o advertiu de que não poderia circular fora do território neutro da ONU por “não estar vacinado” -, o Chefe de Estado britânico ainda tentou jogar uma escada para salvar o colega brasileiro do escárnio mundial, lembrando que também teve Covid, mas tinha tomado as duas doses da vacina, a AztraZeneca, desenvolvida por uma “startup” da Universidade de Oxford com a farmacêutica franco-suíça Aztra Zeneca. Em vão. A cada fala, Johnson era cortado por um Bolsonaro que mexia as mãos em sinal negativo.

Foi negacionismo ao vivo, em escala planetária. Que o presidente brasileiro queira fazer bravata para o seu público de milhares de “Zés Trovão”, que ficaram órfãos e atônitos quando dois dias após ameaçar não cumprir ordens judiciais do Supremo Tribunal Federal, em especial do ministro Alexandre de Moraes, a quem chamou de “Canalha”, deu o dito pelo não dito na “Declaração à Nação”, redigida pelo ex-presidente Michel Temer, vá lá.

Os riscos são de Jair Messias Bolsonaro, que pode vir a ser acusado de “crime de responsabilidade”. Mas a imensa maioria do povo brasileiro não tem nada a ver com essa insanidade. A imensa maioria dos brasileiros apoia a vacinação e quer as duas doses (ou a única da Janssen) no braço.

O resultado do negacionismo do governo Bolsonaro, que retardou a contratação de vacinas, o que implicou no tardio início da imunização (hoje chegamos a 38% da população totalmente imunizada com duas doses), é que o tratamento discriminatório que sofre o brasileiro no exterior, a turismo, estudo ou negócios (só recentemente a Alemanha passou a reconhecer a vacina da CoronaVac), vai ser reavivado depois do trabalho de relações públicas de Bolsonaro. As prevenções contra o Brasil e os brasileiros voltarão à tona, com mais má vontade.

Conversa para boi dormir

Realmente não dá para engolir essa imagem de que a gorda comitiva que acompanhou o presidente Jair Bolsonaro a Nova Iorque mal teve tempo para tomar banho e teve de comer pizza na calçada, como um brasileiro qualquer.

O avião presidencial dispõe de todo o conforto, com suíte privativa dotada de banheiro com chuveiro. Tanto o presidente quanto a primeira-dama Michele podiam ter tomado um confortável banho a bordo.

A calçada foi o território que restou à comitiva, onde o presidente pontificava por não estar vacinado e não podia adentrar pizzaria ou qualquer restaurante.

Picanha X pé de galinha

O fato se repetiu hoje quando criou-se um “cercadinho” - tão ao gosto de Bolsonaro, que força a imprensa a ficar confinada no entra e sai dos palácios da Alvorada e do Planalto, onde recebe sua claque de fiéis seguidores - à porta da Churrascaria Fogo de Chão.

Foi mais um tiro pela culatra. Apesar do nome brasileiro, a filial americana da churrascaria nascida em São Paulo, há muito saiu do controle dos sócios brasileiros e pertence a fundo de investidores multinacionais. No “Dia do Gaúcho”, pedir uma picanha poderia ser uma bela homenagem. Mas Bolsonaro a queimou ao exigir – heresia das heresias – “uma picanha bem passada”.

Pelas tradições gaúchas, picanha se come ao ponto ou mal-passada.

Gosto é gosto, não se discute o mau gosto. Mas o menu ostentação da churrascada é que não pegou bem (e contradisse a tentativa de se mostrar “gente como a gente” comendo pizza na calçada. A picanha custa US$ 50 por pessoa (R$ 266 por cabeça, com o dólar a R$ 5,32 hoje).

É mais que os R$ 250 do Auxílio Emergencial. Ou quase um quarto do salário mínimo. Mas a ostentação é um acinte à imensa maioria do povo brasileiro que teve de banir a carne bovina (de segunda) do cardápio, porque ela já aumentou quase 40% nos últimos 12 meses.

A maioria dos brasileiros de baixa renda come uma vez por outra um peito ou acém, ou sopa com osso. Ou ainda a nova iguaria possível, diante da escalada da carne de frango: o pé de galinha frito ou na canja.

A última do 04

Papai Jair precisa dar uma dura quando voltar ao Brasil no filho caçula, o 04 Jair Renan. Atolado até o topete com suspeitas de tráfico de influência junto à Precisa Medicamentos na CPI da Covid, Jairzinho usou seu perfil no Instagram para provocar a CPI, mostrando uma imagem com cerca de dez armas. "Aloooo CPI kkkkk", escreveu.

Era só o que faltava na reta final da CPI. Mirando no país, os senadores querem agora convocar o filho peralvilho.

O risco de ser grande

Em setembro de 2008, quando as suspeitas de quebra rondavam o Lehman Brothers, envolvido até o nariz com operações arriscadas no subprime do mercado imobiliário americano (duas ou três hipotecas para um mesmo imóvel), os sabichões de “Wall Street” enchiam o peito: “To big to fail” (grande demais para falir). O Lehman faliu e até hoje há rescaldos da crise financeira mundial de 2008.

Pois na economia chinesa, onde o Partido Comunista controlava com mão de ferro a introdução do capitalismo dirigido no país, começaram a surgir, no fim da primeira quinzena de setembro, rumores de que a gigante do mercado imobiliário, com tentáculos em várias áreas, EverGrande, poderia quebrar. Vozes de Lexotan repetiam mais uma vez “muito grande para falir”.

O que mais se temia está acontecendo, e os mercados despencaram nos quatro cantos da terra redonda. Bem fazia minha tia do Grajaú, que dizia para eu ser modesto. Não querer dar passo maior que a perna...