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País - Editorial

Quinzena para clarear

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Na velha sabedoria dos políticos do interior, da qual se valeram não apenas eles, mas também os de expressão urbana, todos à cata de votos, uma lição que se gabava de jamais ser desmentida, é que a quinzena que antecede uma eleição é multifacetada, cheia de bondades e maldades, estas mais que aquelas. Ao mesmo tempo em que vai tirando muitos eleitores das indecisões quanto aos candidatos, acende velas aos condenados ao fracasso. Aqui mesmo no Rio, homens calejados em campanhas, como Nélson Carneiro, ao lado de seu amigo mineiro Benedito Valadares, achava torturante e cruel essa quinzena, embora ambos dela muitas vezes tenham sobrevivido vitoriosamente.
Nos dias atuais, esse período, tido como decisivo, conta com alguns elementos e cuidados para confirmar a antiga fama. A começar que é nessas horas que começa o deslocamento de votos antes prometidos às candidaturas que acabaram se revelando inviáveis. Exposto ao sol inclemente da fuga de correligionários, o derrotado de véspera, além de amargar o tropeço, vê-se obrigado a optar, em segundo turno, por alguém que pouco antes havia espancado. É o quadro que vai se delineando nessa quinzena em que o Brasil entrou, ajudando-a a confirmar sua tradição de antecipar sinais das poucas vitórias e muitas derrotas, que logo depois haverá de acontecer. Um funil no qual muitos mergulham e poucos sairão exitosos nas gotas finais.
Vêm em seguida o tumulto e as incertezas do chamado voto útil, com as especulações sobre o novo endereço a que darão preferência. Mas também aqui a recomendar atitudes prudentes, porque faz-se uso abusivo daquilo que os recenseadores costumam chamar de “chutometria”; quer dizer, a subordinação dos fatos ao que apenas se delineia como vagamente possível. O eleitor, desarmado e com risco de acreditar mal, é, frequentemente, a outra grande vítima da quinzena sufocante. Precisa estar atento, sem adotar com facilidade todas as informações que lhe chegam. A confiabilidade no que se ouve e no que se diz há de ser cuidadosa e restrita.
Já se pode ver que é o período em que mais se fala em voto útil, que, considerado com isenção, é instrumento maldoso, que convida o eleitor a abandonar a convicção sobre determinado candidato à Presidência, antes de votar nele, para transformar o sufrágio sua essência: ele deixará de ser a favor de um, para ser contra o outro. A segunda votação, que tem o mérito de reconduzir às urnas os votos não bem sucedidos na primeira, é importantíssima, mas lamentável, se o voto tem papel de atirador em eleição plebiscitária.
Eis a derradeira quinzena frente a outro fenômeno interessante. São as pesquisas, que antes tanto diferem nas planilhas dos diversos institutos e agências que atuam em campo, mas chegam ao momento em que se impõe um mínimo ajustamento de seus números. Se antes tanto discrepavam, agora têm de cuidar melhor da realidade. Mesmo com o trabalho sério e confiável da maioria dessas organizações, é inegável que nos primeiros levantamentos aplicam-se algumas manipulações, destinadas a pintar determinada candidatura com cores mais alegres. Na última quinzena, sendo isso impossível, o eleitorado vai conhecer uma conta de chegar, e as pesquisas correndo paralelas, sem gritantes diferenças para comprometê-las.
Não custa insistir que se vive um momento propício aos boatos, que, se há algumas semanas revelavam-se grotescos, fantasiosos, e, portanto, inconfiáveis, agora podem chegar com sutilezas, para facilitar a conquista dos incautos.



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