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País - Editorial

O poder vulnerável

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O Brasil ideal, sem amarras, probo, mais produtivo, minimamente justo, é o Brasil que tem ficado das boas intenções dos candidatos à Presidência da República; intenções que, democraticamente, espalham-se pelos discursos de todos eles, tanto os mais cotados como os que vão se distanciando da faixa das possibilidades de êxito. Algumas coisas que dizem pecam pela insinceridade; não porque não desejem o melhor para o país em que vivem, mas por saberem que um presidente tem limites em seus próprios poderes, e não convém delirar. Quando arrotam bravatas aos eleitores, jurando que não se sujeitarão, mais uma vez incursionam no mundo da política irreal.

Há questões fundamentais que ficam subordinadas a um complexo emaranhado de interesses e influências, agindo e decidindo à revelia do chefe do governo, que muitas vezes se submete a contragosto; mas tem de ceder para sobreviver.

São visíveis alguns problemas que nos governos tornam-se sujeitos a poderosas injunções, em favor ou contra as soluções. Nem sempre aparentes, mas sutis, atuando, em nome de forças nacionais e estrangeiras, acima do bem coletivo. É cruel, mas veraz, como o caso de alterar regras consagradas para fomentar lucros políticos, resultantes não do que se deve fazer, mas o que para elas não é conveniente que se faça. É comum deixar de realizar, porque nisso beneficiam-se grupos que atuam na área dos poderes. Nem faltam aí altos funcionários que se empenham em não tirar do papel e das gavetas dos ministérios decisões que são reclamadas pela nação.

Como é frágil um presidente que se disponha a romper os vícios! Com agravante de um obstáculo paralelo, gerado pelos próprios assessores, que se comprazem em planejar, sabendo que não vão executar. Mas, habilmente, ao fim, encontram o jeito mostrar ao chefe como sendo real o que não foi feito. Dá-se, sobretudo, em escalão inferior, onde, segundo o ex-ministro Saulo Ramos, todos adoram governo novo, porque é fácil enganá-los... Os candidatos têm prometido romper essa manha.

O presidente que chegar ao Planalto também terá como testar suas limitações, se desejar pôr em prática as muitas leis que, também sujeitas a interesses, não vigeram. Não sem razão, é comum dizer-se que no Brasil “há leis que pegam e outras que não pegam”.

A campanha eleitoral vai deixando, igualmente exposta, uma outra intenção, que se revela boníssima na sua essência: o combate à tragédia da cruel concentração da renda nacional. O que só se poderá superar em decorrência de um farto elenco de profundas iniciativas estruturais, para as quais qualquer presidente revela raquitismo, se opta pelo ímpeto. Suas dificuldades já começariam com os partidos aliados, porque estes sempre lutam para preservar o status quo.

Os candidatos mais audaciosos, insinuando-se versão nacional do lendário Robin Wood, acenam com a vingança dos pobres: tirar do ricos. O que, comprovadamente, não resolve, porque quem se dispusesse a tal empresa estaria apenas nivelando a riqueza por baixo, aumentando a pobreza. Oferecer tal promessa, em conflito com a realidade, preferindo a fantasia, é desconsiderar a inteligência do eleitor.

O Brasil que todos querem, embora alguns o queiram mais para si e menos para os outros, não é máquina meramente assistencialista ou produtora de benesses cartorialista. E o novo presidente, que não desejamos ver como produto eleitoral de um onda emocional em vaga populista, muito menos salvador da pátria, há de revelar consistência no momento desses desafios, entre os quais, de imediato, avulta a modernização dos equipamentos de governo. Nesse particular temos muito que caminhar.

Somos condenados aos excessos do estatismo patriarcal, que, como se tem dito, leva o governo a fazer mais na economia e menos no social. Mas nada para se resolver com a mágica das cartolas. É preciso trabalhar e saber usar o tempo e adotar suas lições.



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