De um modo novo

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"As pessoas procuram ocupações urgentes
que as impeçam de pensar por si mesmas."

                                                                       Blaise Pascal

 

Nos dias que correm, a globalização muito promete, mediante diminuição das distâncias, difusão das informações e dos serviços, aproximação entre pessoas e culturas diversas. Paradoxalmente, gera a carência de um lugar e laços profundos, uma desorientação e um vazio que não consegue explicar. O ser humano só existe numa trama coletiva de inter-relacionamentos.

A apropriação do próprio presente exige que o indivíduo passe de uma a outra experiência. O aprendizado histórico, inserido na dimensão da experiência, torna-se processo de formação, no qual expectativas, interesses e pretensões devem ser realmente confrontados com a experiência. O aprendiz transcende os próprios limites, se põe à busca de novas experiências.

Quanto mais a pessoa aprofunda a própria experiência, tanto mais sua experiência terá elementos em comum com outras semelhantes, mais originais são reações e resultados. Ser humano é ser com outros em todos os sentidos da existência, não só no respectivo presente. A existência é um anseio por aquele absoluto que mergulha nas profundezas do eu.

Agora é ter presentes todos conteúdos da experiência em que determinações de sentido relevantes para vida prática concreta aparecem, consolidam-se, podem ser demonstradas. A memória histórica volta-se para conteúdos da experiência do passado que representam regras ou princípios válidos para toda mudança no tempo e para o agir humano que nela ocorre.

Uma sociedade pode sempre tolerar certa diversidade, sobretudo se essa tolerância afasta o perigo de conflitos abertos, o que nos conduz a uma noção mais positiva, mais útil. Existem experiências e processos que de fato aumentam a nossa capacidade de prestar atenção: o perguntar e o dialogar. A moralidade da atenção enquanto exercício de saída de si.

O sentido histórico tem de estar sempre ancorado em acontecimentos, conteúdos, dados, estruturas, evoluções, ocorrências, processos; em que a racionalidade é imprescindível. O passado é sempre mais do que um acúmulo de fato sem sentido. O passado sempre está presente como significativo nos processos culturais da memória, na moderna sociedade democrática.

Caráter cada vez mais impessoal e longínquo do poder que pesa sobre a vida social opõe-se à vontade cada vez mais afirmada por cada qual de garantir o próprio futuro pessoal. Conforme o atual espírito de livre exame, as crenças religiosas que se manifestam na moderna sociedade organizada em rede estão destinadas a depender mais da opinião que da convicção.

Quando concretamente vivenciamos aquilo em que acreditamos, eis que ele se torna mais uma vez compreensível para nós. Assim que podemos expressá-lo de um modo novo. Somos capazes de lidar adequadamente, no pensamento como na ação, com problemas que nos confrontam, quando efetivamente desenvolvemos a nossa capacidade de reflexão crítica.

Engenheiro, é autor de "Por Inteiro" (Editora Multifoco, 2019)