Enfim, a indignação!

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Tardou, mas chegou. Sem quebra-quebra, sem invasões, sem balbúrdias. Digna do insustentável peso de trezentos mil lutos, revoltada e sem esconder as chagas de um estupro cotidiano, cínico, debochado a nos recordar a arrogância e a indiferença de uma Maria Antonieta tresloucada, convencida de sua absolutista inculpabilidade. Tardou.

Primeiro sob a forma de uma carta aberta redigida no tom sóbrio de uma definitiva condenação. Uma carta escrita com a pena da razão a condenar a insanidade com que o governo se exime de suas funções e se evade de suas responsabilidades. Uma carta sem deixar uma só vírgula do desrespeito nacional sem menção. Sem condenação. Uma carta sem sentidos dúbios ou metáforas atenuantes. Uma carta-delação, uma carta de homens endereçada a marionetes manipulados pelo ódio, pela ideologia do mal, pela irresponsabilidade diante de um mandato político adquirido - ontem se supunha, hoje se vê - pela maquinação política de baixos instintos e falsas verdades.

Uma carta que identifica a imperícia da administração com a malícia de propósitos a nos surpreender a cada dia pelo desprezo à indecorosa injustiça social, pela indiferença à fome que retorna ao cardápio de brasileiros, pelo inimaginável sadismo diante da morte e da Peste, como se delas fossemos pasto inevitável; como se a morte aos milhares fosse uma inconfessada limpeza étnica. A carta nos mostrou a que ponto baixamos na escala animal a nos assemelharmos a feras desprovidas de ética, de solidariedade e a vida em comunidade não passasse de uma roleta da fortuna.

E melhor que a carta, por sua contundência jurídica, por não ser carta e sim peça de acusação, tivemos enfim a oportunidade de ouvir com riqueza de tons e subtons o relato da caçada dos mastins em festival de antropofagia.

Houve momentos em que a retórica do Jurista me lembrou a oração de Vieira. Não se defendia ali apenas o direito ao julgamento justo de um homem, por mais humilde ou mais importante que fosse. Ali se desnudava a hipocrisia e a pudicícia de bordel travestidas em justiça de vendilhões. E tudo descrito com a linguagem dos autos do processo sem recursos a “hackers" .

Impossível não lembrar igualmente dos autos da Santa Inquisição que se esmeravam em manchar reputações, destruir famílias em nome de uma justiça divina e escravocrata. Muito mais escravocrata que divina. Muito mais política que justa.

Este março de 2021, como tantos marcos de nossa história política, certamente deverá ser lembrado como nossos “idos de março” em que a indignação tingiu os diferentes tecidos de nossa sociedade e fez ressurgir nosso civismo, nosso respeito por nós mesmos, por nosso povo e pelos trezentos mil que nos deixaram.

A partir deste março de 2021, a ingenuidade não é mais uma opção. Não se admite mais a inocência de vestais diante de um mecanismo triturador de nossos melhores objetivos como país e como nação. A verdade desvendada por uma carta de cidadãos - talvez alguns deles atraídos por propostas de redenção miraculosa - assim como pelos autos de Curitiba expõe definitivamente a Terra da Santa Cruz como refém de uma justiça corporativista tão ou mais patrimonialista do que nos tempos da Derrama.

Já não nos convencem mais as fantasias de sermos um país de homens cordiais, se dentre nós há os que buscam o poder por meio de distorcidas convicções a nos levar cotidianamente ao ódio como povo, apesar de nossa secular busca por uma terra de que nos orgulhemos como provedora de nosso pão e garantidora de nossa riqueza. Nossa soberania. Nossa Pátria. Nossa Mãe.

Não um território a ser escavado e a ter suas matas destruídas, seus oceanos perfurados em benefício de uma desequilibrada globalização econômica, passaporte para um colonialismo recorrente.

Março de 2021 nos abriu os olhos. Todo e qualquer gesto daqui para a frente terá sempre a marca de nossa opção. Nada mais é gratuito. Nada mais é impensado. A lucidez é a cruz que carregamos pelos trezentos mil ou quantos outros de nossos irmãos deixados em covas rasas sequer enterrados com dignidade cristã.
Somos todos herdeiros desta miséria. Mas, nem todos dela cúmplices.

Somos gratos aos redatores e signatários desta carta aberta a nos recordar como nos últimos trinta anos nos deixamos entorpecer pela flauta mágica de um sistema internacional de comércio onde o absurdo nos deixa desamparados na hora mais terrível de nossa miséria pública.

A inexistência de vacinas para nosso povo teve, é certo, a hesitação de nosso governo em por elas não lutar no momento certo e nos mecanismos apropriados. Perdemos oportunidades e nos engajamos alegremente na irresponsabilidade de seguirmos a orientação e o deboche de um sociopata como Trump. (Branca, Branca; Leone, Leone)

Mas, a par deste erro tático, forçoso será reconhecer que por mais de vinte anos, em especial nos salões verde-vômito da OMC, engolimos ideologias do comércio administrado, vestido de um liberalismo abre-alas de um comércio falsamente livre.

No caso das vacinas e dos fármacos em geral, aceitamos docilmente o monopólio amparado em supostos direitos de propriedade intelectual. Hoje, vemos a quanto monta em vidas humanas nossa “moderna"adequação aos princípios neoliberais tão enfaticamente defendidos por nosso ministro da Economia. Mas, não apenas por ele. Também pelos arautos e defensores de um Brasil ajustado à OCDE, à cantilena marqueteira de um Brasil de “country clube”. Um Brasil de “última geração“.

Triste constatar que a Peste esteja sendo considerada como um relâmpago em céu azul ao invés de nela reconhecermos as consequências de políticas trazidas por um capitalismo selvagem a destruir de forma mais do que evidente nosso meio-ambiente e a nos levar em acelerada caminhada em direção ao nada.

Este quadro diretamente associado à economia brasileira se viu complementado pelo julgamento da parcialidade de Moro, o rábula, na condução da Lava-Jato e em especial nos processos contra um candidato à Presidência da República, ex-presidente da República, a quem se desrespeitou com uma cinematográfica detenção no recesso de seu lar diante de seus netos assustados. Uma infâmia que não se suspeita possa ser feita senão a traidores da Pátria, a vendedores de segredos da segurança nacional. Uma justiça totalitária, de países totalitários, de Hitler ou de Stalin, de Pol Pot não faria melhor, como advertiu o ministro Gilmar Mendes numa tarde em que esculpiu seu busto no panteão dos defensores da Democracia neste país. E lá ficará para ilustração das gentes que nos hão de seguir.

Apenas quando se cotejam os lados jurídicos e econômicos da ação política do Estado brasileiro nos últimos anos pode-se compreender toda a amplidão do terremoto sócio-econômico que nos abala até hoje. E a infame tentativa de subverter o Estado Democrático de Direito com a ascensão de uma República policialesca. Graças a Deus, como nos enredos das famílias Soprano e outras, a ambição desmesurada nos revelou as fraturas expostas de suas almas corrompidas, corruptas e fantasiadas de esquadrões moralizantes.

A adesão por parte de nossa intelectualidade econômica aos mandamentos do neoliberalismo surpreende quando são também evidentes as rachaduras estruturais no sistema econômico internacional com ameaças ao Estado Democrático de Direito como vimos na invasão do Capitólio e na macaquice provinciana brasileira de colocar em dúvida a importância do Supremo Tribunal Federal ameaçado não só por turbas ignorantes, mas também por alternativas doutrinárias estapafúrdias a defender o AI-5, a exclusão de ilicitude, a liberalização de armas além de outras iniciativas tendentes a restringir o direito à crítica, à opinião, aos direitos humanos em geral tanto internamente quanto em foros internacionais.

Difícil de entender a filosofia politica de um governo francamente favorável ao neoliberalismo claudicante em nome de uma suposta liberdade econômica de abertura indiscriminada de fronteiras nacionais e ao mesmo tempo refratário aos ditames básicos da higiene da saúde pública em meio a uma mortandade desenfreada de brasileiros nas diversas regiões do Brasil.

Os idos de março de 2021, principalmente a carta aberta e os autos processuais de Curitiba, vieram lançar luz sobre as negras trevas deste ingênuo país. Esta luz poderá cegar ainda mais os ideólogos do atraso sistemático que infelizmente ocupam hoje posições de relevo em nosso país. De qualquer forma, a partir deste mês de março a ingenuidade acabou. Cada gesto, cada palavra e cada silêncio terá a força de uma opção política.

E nosso destino, para o bem ou para o mal, volta às nossas mãos.

*Embaixador aposentado