Vacina: bem comum

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Acho bonito as pessoas tirando foto do momento em que são vacinadas. Comecei a reparar nisso quando a primeira senhora britânica de mais de 90 anos foi vacinada e disse estar “altamente aliviada”. Depois foram idosos de ambos os gêneros e em melhor ou pior estado de saúde. Sempre a foto acompanhando o evento histórico de receber a vacina. Amigos e amigas já próximos de minha idade também documentaram sua experiência.

O que há de tão transcendental nesse ato de imunizar-se e oferecer o braço para receber a espetadela que carrega um líquido impregnado de esperança? Em que essa vacina difere das outras? Por que nos traz essa emoção como se a vida entrasse em nosso corpo com a inoculação do líquido que promete imunizar-nos em boa proporção contra a pandemia que aterroriza toda a humanidade?

Existem vários elementos que me parecem fazer dessa vacina tão ardentemente esperada não apenas um evento sanitário, mas igualmente um evento inspirador e revelador do que é a condição humana.

Somos seres relacionais. Não existimos senão coexistindo e convivendo. Isso é verdade desde que o Criador pronunciou no sexto dia sobre a criatura que formara do barro e em cujas narinas soprara o hálito da vida: “Não é bom que o homem esteja só”. A vocação de Adão é a comunhão e não a solidão. E quando a Adão foi dada a companheira Eva, mãe dos viventes, a comunhão aconteceu. A alteridade a instituiu e isso foi muito bom, disse Deus, antes de descansar ao sétimo dia contemplando sua obra.

É fato que após isso Adão e Eva romperam essa comunhão. E por isso é tão trabalhoso reconstituí-la. Somos todos Adão e Eva que buscamos a vida com dificuldades e dor, mas também a fruímos com gozo e deleite. E todos experimentamos o desejo da comunhão plena em todos os momentos em que ela se fragmenta e é obstaculizada pelas várias investidas diabólicas de tudo que divide e separa.

O vírus vem sendo uma pedagogia dura e fecunda sobre tudo isso. Os gestos de proximidade, afeto, amor nos foram proibidos em nome da saúde coletiva. Foram interditados os abraços e beijos, os encontros, as celebrações festivas. Nos foram impostas máscaras que erguem barreira entre nós e os outros. E o álcool e a água e o sabão nos obrigam a exterminar os rastros dos contatos humanos a cada momento e a cada passo.

Demorou perceber que toda essa separação com relação aos outros, junto aos quais sempre desejamos tanto estar, era na verdade a forma acertada de proceder em benefício deles e delas mesmo. O amor que antes se exprimia com gestos de contato e proximidade agora devia expressar-se por atos de distanciamento em nome do cuidado e do amor.

A vacina é um elemento novo que entra nesse cenário. Anunciando esperança de imunização, baixa de contágio e controle da pandemia, é a única opção que existe no horizonte para vencer essa tão difícil prova que atravessamos já há mais de um ano. Por isso, a alegria tão radiante e um brilho de tal fulgor nos olhos daqueles que após uma longa peregrinação em meio às trevas do medo e do desânimo agora sentiam poder ter novamente esperança.

Essa esperança consiste em voltar a poder realizar os gestos do afeto e da comunhão. Os avós sonham em novamente beijar e abraçar os netos. Os amigos desejam voltar a poder juntar-se, conversar, rir e cantar juntos, sentir a presença cálida e estimulante daqueles que se querem bem. Todos desejam andar livremente pelas ruas, entrar nos cinemas e teatros, ouvir, cantar e dançar em shows musicais, sem medo e sem barreiras.

Os que cremos desejamos ardentemente poder voltar a frequentar nossas igrejas em celebrações com muita gente e poder abraçar os irmãos efusivamente, desejando-lhes a paz. E comungar o corpo e sangue do Senhor, expressão da comunhão vital e verdadeira que realiza e conduz à vida plena.

Tantas vacinas já tomamos: sarampo, tuberculose, poliomielite, antitetânica. Mas apenas a vacina contra a Covid- 19 nos acendeu na consciência essa convicção de que oferecendo o braço para a tão desejada espetadela estamos, na verdade, realizando um profundo ato ético.

Já o Papa Francisco que não apenas vacinou-se mas providenciou doses de vacina para todos os funcionários do Vaticano declarou: “Eu acredito que, eticamente, todo mundo deve tomar a vacina. É uma opção ética porque você aposta na sua saúde, na sua vida, mas também na vida dos outros”

Esperemos que a pandemia nos tenha ensinado em profundidade que nada do que penso ou faço afeta apenas a mim. Estou conectada com todos os seres vivos e tudo impacta em tudo. E dentro desse tudo, meus irmãos em humanidade agora me pedem esse gesto ético, de fé e esperança na vida, de abertura e amor. A vacina me dá essa oportunidade. Que ela seja o sinal pascal de vitória da vida nesses tempos de tanta paixão e tanta treva que temos vivido. É uma boa motivação para uma celebração mais profunda e esperançosa da Semana Santa que se aproxima.

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros.