Sinestesias

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De pé, em frente ao fogão, espero a água ferver enquanto me esforço para lembrar onde guardei o pó de café. Meus olhos não acordaram. São seis da manhã. Levantei pelos ouvidos, como se o despertador gritasse o dia que mal amanheceu.

Aproximo as mãos da chaleira, certifico-me de ter acendido o fogo. Mentalmente, antecipo o cheiro do café coado, verde palha. Imagens da cozinha, como a panela de arroz que passou a noite fora da geladeira, o copo de requeijão com um dedo de vinho, o pote de água do cachorro, ganham forma e ativam o gosto metalizado do frio amarelo que entra pela fresta da cortina.

O dia avança enquanto o tempo corre lento, caudaloso. Ao menos para mim. Isso porque, de madrugada, os cães da vizinhança resolveram bater um papo e seus uivos despertaram a minha insônia. Cada um no seu quintal, alguns nas varandas dos apartamentos, todos conversavam animadamente.

Desde o ano passado, quando a pandemia silenciou as ruas nas madrugadas, não ouvia algo parecido. Imunes ao vírus, os cães fazem bom uso da liberdade de expressão: soltam o verbo ao ar livre. Não compreendi sobre o que conversavam e nem me arrisquei a perguntar. Uma resposta canina seria motivo de preocupação. Sei que minha esposa acordou assustada com o barulho do nosso melhor amigo. Poderia ser um invasor ou um gato larápio. Tranquilizei-a: “Seu latido é forte, mas comprido e solene”. Só colocava os assuntos em dia com os amigos.

O bate-papo durou uns quinze minutos, mas reverbera até hoje nos meus tímpanos. Juro que ouvi da Mel, cujas patinhas doces lembram cascas de um ovo de Páscoa, um brado de rebeldia contra o presidente da associação de moradores caninos do bairro. Ele, segundo o “Poste News”, foi o responsável por aumentar a taxa da vacina contra a parvovirose. “Fora, Rex", dizia ela, provavelmente. Fiquei sabendo que o tal cão é o típico valentão covarde. No parque, empina o peito e dá uma de reizinho, mas é começar uma briga que ele se esconde atrás da árvore mais próxima. Certa vez, no pet shop, foi visto colocando o rabo entre as pernas ao ver a agulha da injeção se aproximar da sua anca traseira. “Negacionista”, talvez tenha ladrado Zeus, um pequinês morador da rua de baixo.

Ao que tudo indica, no universo animal não há palavras cinzas. É preto no branco. E vermelho-sangue, no caso de algum sujeito esquentado pegar a orelha do amigo. O bom dos cães é que resolvem seus impasses rapidamente: Rex foi deposto. Dizem ter tido um sofisticado esquema de rachadinhas: escondia ração nas frestas do muro com o piso. Canalha! Ou, nesse caso, Gentalha!

O parquinho está lotado. Final de um dia que se arrasta num fio de ocre-azulado desgostoso. Daqui de casa, ouço humanos chamando seus cães, contentes por correrem atrás de um pedaço de madeira ou bolinha de borracha. Entre eles, felizmente o negacionismo não vingou. Boa parte está protegida contra a parvovirose, cinomose, corona – a não humana. E raiva, cuja imunização é obrigatória em todo o território nacional. Espécie de sorte, essa canina: obrigados a se vacinar contra a raiva, muitos dos seus tutores humanos sentem raiva da vacina.

Falta ração no pote. Preguiçoso, encho o prato do amigo com a refeição da noite. Rego com sachê de salmão, saboreio o entusiasmo do cão. A chaleira espera a água do chá de camomila. Procuro os saquinhos para infusão. A porta do armário está entreaberta e o escuro- vão-alimentício engole meu braço. Desisto do chá. Um café requentado, quem sabe? Para mais uma noite de insônia.

Publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores-SP.

 

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