Nós, xenófobos?

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Vagando pelas reminiscências acerca de como nós, tupiniquins, nos deparamos com situações estranhas, me lembrei de um fato (porque não dizer pitoresco) ocorrido no já longínquo ano de 2004......

Naquele 1º de janeiro de 2004 o “fichamento” de norte-americanos que entravam no nosso país foi adotado por decisão de um juiz federal do MS – Julier Sebastião da Silva – que, por sua vez, se valendo do Princípio da Reciprocidade – norma de Direito Internacional – determinou que todos os turistas da terra do Tio Sam fossem identificados datiloscopicamente e fotografados quando de suas entradas em solo brasileiro.

Tal medida baseava-se no fato de que nós, brasileiros, estávamos sendo submetidos a tal modo de identificação nos aeroportos dos Estados Unidos.

Pois bem, foi só o Poder Judiciário fazer valer a respeitabilidade do povo brasileiro para começarem as críticas. Chegaram a alardear que o então Presidente da República (ele mesmo...), numa postura hostil, fez uma severa retaliação à medida vigente nos aeroportos yankees!

O “The Financial Times” (UK) criticou a medida, um tablóide alemão idem, e assim por diante... Mas o cômico foi alardear que a postura do Brasil, além de retaliadora, foi xenófoba!!!

Sim, xenófoba!

Nós, que a cada ano recebemos milhares de turistas norte-americanos e, diga-se de passagem, tratamo-los muito bem, fomos taxados de xenófobos... diferentemente deles.

Há época, muitas eram as reclamações acerca de tratamentos desiguais dados aos turistas brasileiros nos aeroportos dos EUA: humilhação, execração, pedantismo, enfim, posturas que não se coadunam com pátrias ditas “irmãs” (irmãs como Bette Davis e Joan Crawford em “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?”).

Tal fato me lembra uma passagem da ofensiva de Bagdá, onde prisioneiros americanos eram mostrados pela TV estatal iraquiana. Foi um rebuliço só... Como é possível????... Desrespeitou-se a Convenção de Genebra (expor presos de guerra à condição vexatória).

Mas, logo depois, os próprios soldados norte-americanos deixaram que os prisioneiros iraquianos fossem filmados pelas câmaras de TV.

Expor prisioneiros de guerra norte-americanos afronta a Convenção de Genebra. Expor turistas norte-americanos a uma grotesca identificação datiloscópica e fotográfica é uma aviltante retaliação... mas e o contrário?

E quando nós, usando de uma norma vigente de direito internacional, fizemos com que os norte-americanos, os brothers, tivessem o mesmo tratamento aqui do que o que tínhamos (e temos) nos seus aeroportos? Isso seria retaliação no sentido negativo do termo?

Firmou-se a impressão de que “eles” poderiam tudo e o resto do mundo não pode nada!

O tão aviltante e desonroso episódio envolvendo brasileiros e yankees deu-se em data de 14 de janeiro de 2004, oportunidade em que sete agentes da Polícia Federal, que trabalhavam no setor de desembarque do Aeroporto de Cumbica, começaram a proceder à identificação de passageiros e tripulantes do vôo AAL 907, da American Airlines.

Quando da identificação do Comandante Dale Robbin Hersh, este se valeu de um “símbolo internacional de xingamento” e, ao segurar uma placa numérica de identificação, projetou o dedo médio, oportunidade em que os agentes federais, percebendo tal ato, deram-lhe voz de prisão em flagrante por desacato e proibiram os dez tripulantes do vôo de entrar no país, naquele que foi o primeiro incidente registrado em duas semanas de vigência do novo sistema de controle de entrada de americanos no Brasil.

Existe uma frase erroneamente atribuída a Charles De Gaulle (“Le Brésil n'ont è pas un pays sérieux”) que, por incrível que pareça, foi falada por um diplomata brasileiro (Carlos Alves de Souza Filho) ao jornalista Luís Edgard de Andrade quando de uma entrevista ao nosso JB acerca de um conflito diplomático envolvendo Brasil e França nos idos de 1962, denominado “Guerra da lagosta”.

Pois bem, tal frase (de que o Brasil não é um país sério) repercute mal até hoje.

O episódio envolvendo o Princípio da Reciprocidade fez com que, há época, com a “louvável” atitude de um membro do Poder Judiciário, fôssemos invadidos por uma felicidade imensa. Ficamos orgulhosos com tal postura, melhor dizendo: lavou-nos a alma!!!!

O Brasil merece sim ser respeitado “lá fora”.

A frase de Carlos Alves há de cair no esquecimento.

Mas para que essa respeitabilidade cresça a cada dia, faz-se necessário que todos nós, principalmente a classe política, nos demos ao respeito.

Um passo foi dado lá atrás. Deveríamos segui-lo, ao invés de ficarmos preocupados com tantos “Febeapas”... como diria o nosso querido e saudoso Stanislaw (Sérgio Porto) Ponte Preta.

Luiz Alexandre Botelho. Advogado e professor universitário