O Gigante dos passos perdidos

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Estará o Brasil num beco sem saída? O Gigante tem mesmo pés de barro e nosso destino será sempre o do país do futuro passado, dos sonhos grandiloqüentes permeados de bolhas e voos de galinha, sem nunca nos afirmarmos como nação de primeira grandeza, terra de um povo criativo e solidário?

Assim é nossa fotografia nesta estranha Rolleiflex de 2021 a nos revelar toda a miséria de nossa história de passos perdidos, nossa inimaginável e estúpida relação com a Peste, nossa indesculpável e indecorosa associação com o pior do pensamento político antropofágico, com a mais canalha das pseudo-doutrinas econômicas, madastra de pérfidos estrategistas sociais paridos nos últimos quarenta anos e batizados nas bacias da cobiça desenfreada, da riqueza a qualquer custo, inclusive o da mentira, do roubo e da corrupção.
Estamos estacionados na Estação do Boulevard dos sonhos perdidos. Diante do holocausto de 250 mil de nossos irmãos, vidas ceifadas pela combinação sacrílega de estupidez e megalomania a se espalhar país adentro com a desfaçatez própria da ignorância abençoada pelo autoritarismo primário, acasalado com o oportunismo lúbrico e argentário.

Vivemos a Babel desequilibrante de não reconhecermos mais a língua de nossos capatazes, empesteada por uma gramática tatibitate, uma sintaxe desconexa e um vocabulário de águas sujas a tudo confundir e a nos convidar a mergulhar sempre no mais fétido de nossas almas.

E olhamos em torno de nós e pouco a pouco nos damos conta de que fomos abandonados. O Brasil fugiu. Nos deixou com nossos ódios leprosos, nossa raiva inconsequente, nossa sanha de nos armarmos com os calibres da insanidade e acalentarmos o dia em que sairemos às ruas a nos entre matarmos sob o comando desvairado dos sem-noção, pobres ignorantes projetos de títeres, sequer capazes de compreender porque matam e porque mandam matar. Narcisos míopes a sua própria perversão.

O Brasil pede desculpas, mas com esta gente não fica. Até porque tem orgulho de sua roupagem, de suas matas, de seu subsolo e das riquezas que nele guarda. Tem pudor de ver-se rasgado e deflorado para exclusiva rapinagem do acionista sem cara nem caráter. O Brasil sabe o que vale e não pretende fingir que não sabe. Conhece bem as mumunhas dos vendilhões para acreditar na velha história da bruxa Tatcher e no vovô Reagan de que não há alternativa senão privatizar, privatizar, esquartejar, esquartejar. E de que a sociedade não existe.

Durante décadas a alternância entre o PSDB de FHC e o PT de Lula permitiu ao Brasil uma gestão em torno de projetos de desenvolvimento econômico, onde os paroxismos da extrema direita e de extrema esquerda eram contidos ou corrigidos a cada quatro anos. Navegamos com identidade própria na política externa e, a par de nossa intransigente defesa de nossos interesses sócio-econômicos, sempre fomos igualmente um parceiro confiável nas Missões de Paz das Nações Unidas, quando nossas Forças Armadas souberam usar com dignidade os “capacetes azuis” em defesa de valores democráticos e de Direitos Humanos. Éramos voz ouvida no Conselho de Segurança das Nações Unidas e foi sob a presidência do Brasil (embaixador Paulo Nogueira Batista) que se logrou a cessação de hostilidades na primeira Guerra do Iraque. Não foi pouca a gratidão das nações pela determinação e criatividade da Diplomacia brasileira.

Com a entrada de Trump - hoje se constata finalmente - rompe-se o equilíbrio instável gerado pelo neoliberalismo e pela globalização, ambos a ostentar os abismos sociais deixados pelo abandono dos mecanismos keynnesianos e da social democracia. O Brasil, estupidamente abandona sua equidistância possível e, com a dupla Temer- Meirelles, desfigura a Constituição de 1988 com reformas - como a do teto de gastos - que engessam de vez o investimento público abrindo caminho para a camisa de força do par Bolsonaro-Guedes, quando o Brasil mergulha no passado neocolonial a que havíamos resistido por mais de vinte anos.

A ressaca do porre psicodélico deste coquetel autoritário-neoliberal-trumpista-terraplanista fez do "samba do crioulo doido" uma cantata de Bach. E aqui estamos com Guedes falante e prestigiado, a insistir que a miséria crescente de hoje será a riqueza de amanhã, cantiga de realejo inteiramente desafinada com a realidade social do Brasil. Guedes foi promovido de posto ipiranga a refinaria. Basta ver a segurança com que deitou falação sobre as duas pernas; uma para a vacinação outra para a reforma administrativa. Bem que tentou garfar também o Fundeb, mas não deu. De qualquer modo, jogou na praça o “custo Bolsonaro”, deixando claro que a “patota" ainda tem bala na agulha. E a reeleição depende de quatro pernas ou de quatro patas. Não se fala de outra coisa nas Mansões Dom Bosco. Cada um na sua teta, que o leite não está barato. Como se dizia nos tempos da Pilantragem do Simonal: “alegria, alegria”.

E o Brasil foi embora. Já não aguentava mais a hipocrisia da política de meio-ambiente a transformar a Amazônia no foco real da cobiça com medo de dizer seu nome. Um crime cuja motivação se esconde atrás de diáfanos véus da soberania.

E o Brasil foi embora. Não se reconhece na política econômica de sucursal do capitalismo predatório onde o Brasil será apenas um campo de golfe do 0,1% dos milhardários a confundir Pátria com country clube, onde dar tacadas não é simples metáfora para a pirataria institucionalizada.

Restam-nos nossos amigos de vida. Aqueles com quem você correu dos cavalos na Cinelândia em 1964. Aqueles com que você foi à marcha dos cem mil. Aquela com quem você assistiu o comício pelas Diretas-já. Muitos já se foram. Muitos sem sequer se despedir. Outros viraram a casaca e nos convidam para bebericar um uísque rótulo preto em homenagem aos velhos tempos. Estes, os piores. A justificar o injustificável, com frases feitas: “contribuo para o social com o meu imposto de renda”. Pois é.

Apesar de tudo, naquele tempo o Brasil estava lá. Junto de nós. Acreditava em nós. Não pensava sequer em nos abandonar. Era nosso pouso, nosso voo, nosso amor compartilhado. Hoje, se foi. E entrou esta Peste. E os que a acolhem como irmã em armas. E a afagam como doce companheira. E recobrem de ovos de serpente seu rastro de sangue, morte e luto.

O Brasil se foi. Deixou por aqui algum álbum de velhas fotografias dos tempos em que andávamos juntos. Agora temos que encarar este prato feito de ódio.

Foi de todos os golpes o maior dos golpes. Separou o Brasil do Brasil.

*Embaixador aposentado