Sem perspectiva

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Semana passada queriam me arrancar de casa. Na tentativa de cumprir o isolamento social, finquei meus pés no chão como uma criança mimada. Disse que só iria em último caso. Mas minha esposa, dotada de alto poder persuasivo e uma coleira na mão, me convenceu a ir ao médico. Como último recurso, pensei em acionar o gatilho de passeio do cão, ao meu lado, já babando e balançando o rabo, com um “vamos passear”? A prudência me impediu.

No carro, fiz valer minha condição de macho alfa orientado. “Desliga o wase, eu sei onde fica”. Paramos num estacionamento em uma transversal, quase atrasados por conta da minha teimosia. Chegando na rua, antiga, cadê os números das casas? Com o olhar feminino me fuzilando e uma ou outra gota do temporal que se armava acertando nossas cabeças, pus meu rabo entre as pernas e olhei ao redor a procurar ajuda. Vi um único homem, próximo a um muro.

Observei o momento em que o homem, na faixa dos trinta anos, se afastava do muro. Parecia ter visto algo incômodo na parede esverdeada, da qual se distanciou com dois passos rápidos e voltou os olhos para a tela do celular. Era como se, ao olhar em frente, seu envolvimento com o aparelho tivesse sido interrompido por um espasmo, bug mental ou coisa parecida.

Senti que não era boa hora para uma abordagem, mas o céu chuvoso não me dava opção. Perguntei a ele onde ficava o consultório médico. Disperso, o homem indicou com o cotovelo para onde deveríamos seguir e voltou a atenção ao pequeno dispositivo em suas mãos. Se lhe fizesse outra pergunta, talvez ouvisse como resposta “Sem tempo, irmão”.

“Nossa, que resposta profunda”, sussurrou minha esposa. “As pessoas só têm tempo para o celular”. Sem tempo, corremos e chegamos à antessala do consultório. Enquanto aguardávamos o atendimento, me ocorreu o motivo do brevíssimo incômodo do rapaz.

A visão impressa na parede era de uma mão. Mão grande, profundamente marcada no muro esverdeado, como se alguém a houvesse pressionado contra o cimento ainda maleável. Dava para ver as sombras dos contornos dos dedos, as falanges grossas, marcas do tempo na junção dos ossos.

Na cadeira da antessala, me lembrei de um trecho do livro “Lavoura Arcaica”, de Raduan Nassar. O pai, proprietário de terras, discursa sobre o tempo: “... onipresente, o tempo está em tudo...”. Em que pese, no livro, a intenção do pai ao proferir tais palavras, o fez considerando a vastidão de espaço, o tempo infinito agindo sobre a natureza, vista em perspectiva.

A natureza da metrópole parece diferente. A mão que adentra a parede, sua sombra infinita, é incompreensível a quem vive em cubículos de concreto, erguidos em cidades onde pessoas são sardinhas enlatadas nos ônibus lotados, as avenidas são carros parados no trânsito. “As pessoas só têm tempo para o celular”. Mas de quanto tempo alguém pode dispor se a esse alguém falta espaço?

O homem se afasta da parede. Mais um passo e foge-lhe a mão impressa, aberta, os dedos fundos em perspectiva como um aviso de “Pare”. Do celular, vem uma música, talvez de um game. Quem sabe se trate de um desses games que permita jogar com avatares. O tal homem cria um avatar, é imortal no jogo. Assim, dribla a onipotência do tempo, rebela-se contra a divindade urbana que oprime seu espaço. A mão profunda não existe mais. Resta a superfície das telas.

Na consulta, o médico pergunta como estou me sentindo. Seus olhos perscrutam os meus, buscam qualquer evidência de mau comportamento, bebidas em excesso, falta de exercício, horas sentado em frente à tela do computador. Após ler os resultados dos exames, ele me dá uma boa notícia: “Sem perspectiva de piora”. Gostei do doutor, acalmou os ponteiros do meu relógio biológico. Ao pagar, deixo uma generosa gorjeta. Sem tempo ruim.

Publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores-SP.