Viagens de negócios, a lazer

.

..
Credit.....

Com o adiamento das Olimpíadas, deixei de acompanhar as notícias sobre esportes estrangeiros. Por esse motivo, domingo passado fui pego de surpresa quando soube do Super Bowl. Nunca entendi direito o jogo, os sujeitos se atropelando para catar uma bola oval. Como bom representante tupiniquim, se fosse uma bola redonda, vá lá. Mas tudo bem, vale a festa. Ainda mais por um dos finalistas ser o time da cidade de Tampa.

Era 1997 e viajei a serviço para o exterior. Após algumas reuniões, um sujeito muito simpático e sua esposa me convidaram para ir ao estádio assistir a um jogo de futebol americano. O Tampa Bays enfrentaria o então bicho-papão da liga, Washington Redskins. Como recente torcedor do time da casa, no primeiro lance soltei um “solta essa bola, ...”, ao ver o “quarterback” da equipe girando feito um peão desgovernado. Fui aplaudido por uns vinte na arquibancada, que não entenderam patavinas do que falei mas gostaram da minha reação.

A equipe da casa era horrível. Daquelas que, se houvesse rebaixamento, iria direto para a terceira divisão. Por sorte, ganharam o jogo. Bem, talvez não tenha sido apenas sorte. Naquele dia, acordei e peguei o elevador do hotel para tomar café-da-manhã. Num dos andares, entraram três sujeitos que de tão grandes pareciam de outro planeta. Eram os caras do Redskins, haviam se hospedado no mesmo local. Conversavam, com cara de sono, sobre a farra da noite anterior. Lá, como aqui, não tem jogo ganho. Os favoritos beberam, não dormiram e tomaram um vareio.

Sempre gostei de viajar a trabalho e colecionar histórias como essa. Quando possível, aproveitava uma pausa para conhecer o local visitado, algum restaurante, os museus, uma praia afastada. O turismo de negócios, nas sextas, se estendia ao lazer nos finais de semana. Os hotéis sabiam disso e davam generosos descontos para incentivar a prática. “Cada cidade tem uma alma”, disse certa vez um amigo. Provar a melhor empadinha do mundo num boteco escondido atrás de um ferro-velho remedia a fadiga corporal, faz bem para a alma do viajante.

Com a crise sanitária e econômica, o turismo de negócios capenga. Segundo a Associação Brasileira de Viagens Corporativas (Abracorp), o segmento apresentou queda de 81,7% no terceiro trimestre de 2020 se comparado ao mesmo período em 2019. Empresas hoteleiras e de transportes terão de se “reinventar”, dizem analistas. Bonita palavra para demissão. De um ano para cá, as “lives” praticamente eliminaram os deslocamentos. É uma pena, perdem todos.

Além da óbvia e gravíssima situação de desemprego nos setores hoteleiros, de transporte e serviços em geral, perde também quem não viaja. Sem mais cafezinhos no aeroporto, pausas necessárias para observar os passantes, ou mesmo ler um bom livro nas longas viagens de avião. Quais histórias contaremos? As vivenciadas em reuniões online?

Cresci ouvindo causos de viajantes. Quando criança, passava horas escutando dos mais velhos os perigos da estrada à noite, quando saiam a serviço. Um tio que voltava do Mato Grosso, já perto de casa, cansado e de madrugada, cortou caminho por uma picada na plantação de cana. No caminho, atropelou e matou uma capivara. Assustado, fugiu, mas a capivara não o deixou. O espírito do bicho o perseguiu até que ele voltasse para enterrar o cadáver, com direito a reza. Nos bate-papos ao lado da fogueira, cada um tinha viagem para umas 10 “Aventuras de Marco Polo”, cheias de animais, estradas, jogatinas.

Coisa difícil de imaginar hoje em dia, quando a aventura maior é ir até a esquina e correr o risco de ficar doente. O jeito é escolher outra jornada, uma que leve a 2022 sem o atual percurso macabro. Com o cuidado de, na picada, não toparmos com alguma capivara assombrada se fingindo de morta.

Publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores-SP.