Transformar a realidade

.

..
Credit.....

O longo debate sobre razão de Estado, que se estende por séculos, reafirma que na ação política não são os princípios que contam, mas as "grandes coisas", no dizer de Maquiavel. O governante se vê confrontado com situações excepcionais, porque opera num contexto de relações - tanto interna, como externamente - em que exceção é elevada à condição de regra.

A mecanização do Estado atuaria na realidade social em suas exigências e motivos efetivos, alongando-se num aparato executivo, cujo funcionamento persegue o equilíbrio de forças, impedindo problemas previsíveis, atenuando os imprevisíveis. Necessita da eliminação tão completa quanto possível da estratégia de simulação e de engano, recorrente hoje no País.

No mundo instável de política e poder desenfreado do dinheiro, primado da lei e princípios gerais da vida em sociedade aparecem como garantia à demanda coletiva por segurança. Sucessão de catástrofes e perigos - agora, a pandemia do novo coronavírus - acelerou a tomada de consciência coletiva relativa à preservação do ser humano e seu meio ambiente.

Em vez de se adaptar à ordem e ao equilíbrio dados, chamados naturais, o ser humano constrói um mundo novo, cultural, sobre o anterior. Ele certamente não é o criador da vida, mas quem constrói a vida humana ou, mais exatamente, aquele que exercita a capacidade técnica para sair da necessidade da natureza, capaz de modificar substancialmente o seu entorno.

"Estamos no mundo não para olhar como as coisas são, mas para produzir, fazer transformar a realidade", sustentou Richard Rorty. Porque relações sociais jamais se reduzem a justaposição de indivíduos, estar junto significa, naturalmente, participar da trama conjunta de influências recíprocas. Mais do que resolver conflitos, acordos devem organizá-los.

Experimentamos atualmente um questionamento radical dos valores da própria existência humana. Exige crescente aprendizagem no sentido de configurar a vida humana em suas referências concretas, a partir de sua dimensão espiritual. O espírito pode nortear a agressividade e conjugar seu persistente impulso destrutivo à vontade de preservar e desenvolver.

Apenas se tivermos diante dos olhos um conteúdo que dê sentido ao nosso esforço - que só pode ser encontrado nas possibilidades positivas, ainda por realizar, de nossa existência.

Engenheiro, é autor de "Por Inteiro" (Editora Multifoco, 2019)