Aos moradores de rua, o campo minado

.

..
Credit.....

A imagem lembra uma boca aberta de tubarão e seus dentes organizados em fileiras. À frente, um homem com sua bengala passa em revista as saliências imperfeitas que brotam da cartilagem da boca, como se impedisse o avanço da tropa inimiga. Atrás, o horizonte acinzentado. Nenhuma alma viva por perto, exceto o homem que enfrenta a enorme e imóvel cavidade.

Outro olhar revela uma daquelas máquinas industriais trituradoras de resíduos sólidos. Dois eixos movimentam cilindros que, grudados um no outro, giram em sentidos opostos. Colados nos eixos, pinos gigantes de aço se intercalam e moem qualquer coisa que se ponha entre os cilindros.

O homem, com sua bengala, derruba a marretadas pedras e blocos que se assemelham aos dentes de tubarão e pinos trituradores. É o padre Júlio Lancellotti. As pedras, colocadas embaixo de um viaduto na Zona Leste de São Paulo, têm como objetivo impedir que moradores de rua façam do espaço suas casas.

Embora a prefeitura da capital paulista tenha exonerado o autor da façanha de engenharia, a ação é recorrente. Entra prefeito, sai prefeito, e a tentativa de eliminar os sem-teto das vistas da população – e das suas próprias, talvez no caminho para o trabalho, caso não usem helicópteros – permanece.

A impressão de quem passa nas calçadas dos viadutos armados com barricadas é a de andar ao lado de um campo minado. Como se fosse dito aos nossos concidadãos sem-teto, pretensamente não merecedores do espaço público, para afastarem-se do convívio coletivo. A bizarrice debaixo das pontes atinge seu nível máximo de excentricidade quando, em vez de pedras e blocos, cerca-se o espaço com grades de ferro. Só falta uma placa dizendo “Não entre. Espaço de ninguém”. É a prova derradeira da incompetência da prefeitura ao zelar pelo espaço público.

Enquanto os ninguéns são impedidos de frequentar a própria casa, a feiura afasta os alguéns das ruas e os confina em espaços privados. Se a pandemia limitou a maioria da população de frequentar as vias como antes fazia, melhor mesmo é ficar em casa. No confinamento, ao menos não se vê que existem pessoas sem nem um telhado de viaduto.

No Brasil, são mais de 24 mil moradores de rua, segundo o Censo da População em Situação de Rua de 2019. Pessoas invisíveis, impedidas de sonhar a ficção coletiva. De esperar, como cidadãos, o quinhão também a eles prometidos. Se a sociedade fosse um ente com forma, cheiro e vísceras, os sem-teto seriam seu pesadelo. Quando a cidade desperta, os carros vibram sobre os viadutos de pés abandonados. O ronco dos escapamentos faz esquecer um sonho ruim. Já o pesadelo, quando acorda, não tem espaço a ocupar. Talvez, invisível, amorfo, esteja confinado pelas grades que cercam as pontes. Alguéns não reconhecem ninguéns. Ninguéns são o devaneio numa história de abandono.

Quando o padre Júlio Lancellotti, apoiado na sua bengala, quebras as pedras que afastam os desabrigados de suas moradias, está lutando para lhes proporcionar acolhimento. Mas também chama os anônimos alguéns a participarem da cidade. Ao revelar a realidade dos invisíveis com o barulho das marretadas, faz ver a importância da construção urbana com o mínimo de decência. Ao defender uns poucos, dá a todos a ponte de acesso à dignidade. Precisamos de mais pessoas como o padre Júlio Lancellotti.

Na ordem de vacinação contra a covid-19, por que não dar o protagonismo aos moradores de rua? Podem ser os primeiros a tomar o imunizante. É o mínimo a ser feito a quem trata as nossas ruas como sua própria casa.

Publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores-SP.