A coisa mais natural do mundo

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Chesterton era um amigo para cada qual; sentia-se em casa onde quer que seus amigos estivessem. Seus interesses políticos e intelectuais o levavam a personalidades diversas. Fidelidade a tudo de que sempre gostara era nota dominante que dava o tom de sua vida; sua memória tinha qualidade assombrosa, como a não permitir que nada nem ninguém lhe escapasse.

Porque estamos tão acostumados com um mundo de coisas feitas, e nele nos movemos tão à vontade, ficamos inclinados a nos identificar com aquilo que fabricamos ou fazemos, muitas vezes nos esquecemos de que a maior prerrogativa de cada ser humano é ser ele essencialmente e, para sempre, mais do que qualquer coisa que possa produzir, ou até alcançar.

Por mais impressionante que possa ser o resultado, essa atitude sempre põe a perder qualidade especificamente humana da grandeza, de ser maior do que qualquer coisa fabricada. Uma vez que ele possuía essa grandeza como a coisa mais natural do mundo, Chesterton era um especialista em detectá-la nos outros, independentemente de qualquer posição ou conquista.

Para Chesterton, a política era de fato o único lugar onde as ideias podiam ganhar forma e contorno que efetivamente emergissem como verdadeira realidade da condição humana. Sua existência espiritual era construída sobre a decisão inabalável de jamais se conformar, ou jamais escapar, o que é apenas uma outra maneira de dizer que era construída sobre a coragem.

A política não existe como um simples resultado dos interesses privados; ao contrário, pressupõe um contrato social, que precede e ultrapassa todos os contratos particulares. Se abandonarmos esse postulado, reduzindo a política a função de mercado onde se determina o valor dos interesses presentes, o espaço da política é imediatamente ameaçado de desaparecimento.

Fato é que a vida política contemporânea traduz uma evolução de sociedade onde a sucessão efêmera de percepções substitui a consciência de um destino comum vivido através do tempo.

Na recente eleição para as mesas diretoras da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, o valor dos interesses presentes reduziu a política a uma multiplicidade de arranjos particulares.

Engenheiro, é autor de "Por Inteiro" (Editora Multifoco, 2019)