Crie uma treta... e fique

..
Credit.....

Faz um tempo que não vejo o mar. Há quatro anos não piso na areia da praia e sinto o cheiro de outras terras a me explicarem como anda o humor de viajantes nômades no Saara. Alguém, numa ilha perdida do Atlântico, teria jogado uma garrafa às águas salgadas, rogado que a maré levasse a mensagem de socorro embarcada no interior da reduzida nau translúcida? Desejaria o solitário náufrago o resgate ou apenas presentear o único leitor com sua literatura?

Morei alguns anos em Fortaleza e era raro o sábado em que não se reunia um pequeno grupo para cruzar a arrebentação da Beira-Mar. Saíamos, cinco ou seis, do quiosque em frente ao Náutico, nadávamos cerca de duzentos metros mar adentro, depois margeávamos a orla até Iracema. Lá, vi antes das sete o nascer do sol em águas abertas. Tive a chance de dividir, receoso, o espaço próximo com golfinhos. Mas pouco se compara ao terror inédito de estar cercado de oceano sem ter onde pisar. Ao corpo, vulnerável pois em ambiente estranho, resta mover os braços e pernas até o destino final.

Nunca nadei em mar de ressaca. Muito antes de ultrapassar o limite da água na barriga, Machado de Assis mostrou os olhos de ressaca de Capitu, os perigos e fascínios do desconhecido. Aos dezesseis, no colégio, “Dom Casmurro” alertou sobre as pupilas do imponderável, da crescente “onda que saía delas... cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me, tragar-me.” No mar, fui bom aluno. No amor adolescente, nem sempre saí ileso da “força que arrastava para dentro”, embora tenha identificado, por vezes, alguns “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Sobrevivi, graças também ao renomado autor.

Um conhecido youtuber, no desafio chamado “Crie uma treta literária e saia”, disse no twitter que “Álvares de Azevedo e Machado de Assis NÃO SÃO PARA ADOLESCENTES! E forçar isso gera jovens que acham literatura um saco.” Talvez tenha tido experiência ruim com alguma obra, leu e não gostou. Pode ser que nem tenha lido e detestou. Acontece. Mas qual livro, na literatura, aborda o tema que enlaça Bentinho e Capitu com tanta profundidade e sutileza como “Dom Casmurro”? Seria a paixão e seus desdobramentos um assunto enfadonho para adolescentes? Um saco?

Ao se declarar contrário à leitura de Machado de Assis e Álvares de Azevedo, o youtuber provavelmente eliminaria outros clássicos da sua prateleira de livros para adolescentes. Ler, por exemplo, a aventura de Santiago, o velho pescador do livro “O Velho e o Mar” seria tarefa apenas para adultos? Manolin, o jovem amigo do pescador, desapareceria da imaginação dos colegiais, assim como as cicatrizes nas mãos calejadas do protagonista, o sol a lhe torrar as vistas no Mar do Caribe, a luta contra o gigante marlin. Não haveria heróis, enfrentamento, superação.

A um herói, é preciso estar disposto e ter coragem. Não me lembro de ler um clássico em que o protagonista solte uma bomba, saia fora e acompanhe de longe as consequências da sua atitude.

É mais fácil lançar um desafio, ou criar uma treta, e sair. Ao ficar, o “tretante” seria obrigado a defender seu ponto de vista. Teria a chance de se aventurar por territórios desconhecidos, colocaria à prova suas opiniões, seria contestado. No caminho do debate, seus zilhões de seguidores acompanhariam a saga da construção do conhecimento, identificariam seus tormentos, inimigos, o incentivariam durante o percurso ao ver expostos seus defeitos e bravura, firmeza e determinação. No final, é esperada alguma transformação.

O herói, como um náufrago perdido numa ilha deserta, tem o mar infinito à sua espera. Sabe que, um dia, terá de enfrentá-lo. Fugir ao enfrentamento não é uma opção. É de se questionar o que espera alguém que lança um desafio, ou uma treta, e foge do embate. Transformação?

Publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores-SP.