Pandemia com "p" minúsculo

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Vamos ter, neste ano, momentos tão difíceis como em 2020? Pelo que dizem os noticiários, a pandemia vai longe. Aliás, a palavra “pandemia”, de tão usada, talvez perca seu caráter superlativo. Se não na tragédia a que dá nome, ao menos no texto. Confesso que, ao escrever ou digitar o termo que designa boa parte das mortes a assolarem o planeta, pensava em iniciá-lo com letra maiúscula. Mas já faz um tempo que isso não acontece.

Primeiro, porque a tragédia assumiu um aspecto crônico. Dia após dia, as mortes provocadas pelo vírus perdem o efeito do desconhecido. Ao chegar, levar pessoas próximas, aceitamos a finitude como parte da vida, tal qual se estivéssemos anestesiados. Houve um período em que eu sofria crises renais com certa frequência. Numa das crises, talvez a mais séria, o médico do pronto-socorro me receitou morfina na veia. Durante o efeito da droga, passei a acreditar na felicidade plena. Pacientes chegavam estropiados e eu, leve e entorpecido, me sentia parte de um quadro do Picasso, cercado de gente disforme. Até hoje fico espantado com a ausência de empatia pelos pacientes do PS. Estaria o mundo anestesiado?

À medida que os ataques renais se sucediam, o medo dava lugar a ações práticas: tão logo a dor tinha início, atuava para encerrar o sofrimento. Passei a temer não mais a tal dor, mas sua chegada caso não houvesse um hospital ou farmácia por perto. O pavor do desconhecido deu lugar ao pavor pela impossibilidade de agir.

Nunca fiquei desassistido, embora em dado momento tenha corrido o risco. Numa viagem ao interior, era meio da tarde, eu ia sozinho no automóvel e baixou uma tempestade. Não se via nada além das lanternas dianteiras, àquele momento já acesas. Seria prudente parar o carro no acostamento e esperar a chuva diminuir, mas uma crise renal se anunciava. Sozinho, sem assistência, tomei a difícil – e única possível – decisão: segui dirigindo, atento o quanto possível ao percurso enquanto administrava a dor. Por sorte, alguns quilômetros à frente vi um posto de gasolina onde havia uma pequena farmácia, improvável naquela região.

Medicado, me abasteci de remédios e segui viagem. Ao me lembrar da situação, imagino a sensação de abandono, solidão e desassistência de pessoas doentes sem planos de saúde; moradores de regiões cujos leitos hospitalares estão lotados, sem balões de oxigênio o suficiente para dar conta da demanda; gente que vive na rua e convive com a sensação de impotência. Muitas vezes, seu alucinógeno não vem de receita controlada nos hospitais. Alivia a dor, definha o corpo e mata. Sem espaço para revolta.

O segundo motivo da perda de status da pandemia é a banalização do seu uso. Como doença, tem um caráter avassalador, divino. Não se conhece a cura, as vacinas demoram a chegar, fizemos algo errado? Pode ser uma punição, se não de Deus, uma revanche do Planeta – o “p” maiúsculo é proposital. É possível substituir Planeta por Natureza ou pela Ciência que a rege. Muda a divindade, seu efeito sobre a alma é parecido – Mas é a Covid-19 ser usada como instrumento de disputa política que seu aspecto humano, minúsculo, se evidencia.

Mesquinharia, ignorância, descaso, incompetência, crueldade, sadismo, leviandade, insensatez. Palavras gravadas nas páginas do dicionário. Escritas com letra minúscula, salvo se colocadas no início da frase.

Penso se, após mais de um ano desta doença que já matou milhões no mundo e mais de 200 mil pessoas no Brasil, não estamos com a visão turva, quase cegos. Melhor varrer a sujeira para debaixo do tapete e fingir viver num país sem o vírus. Ou, então, vale mais delegar a aquisição e distribuição da vacina, sem cobrança, fiscalização ou senso de urgência, a corruptos federativos. Deixar a coordenação do SUS sob responsabilidade de incompetentes. O que podemos fazer, não é mesmo? E, assim, a pandemia se insere no vocabulário cotidiano. Covid-19, procura no dicionário! Definição: doença sem cura... Vida que segue. Ou não.

Publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores-SP.