Exagero de positividade

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Imagine, leitor, a situação: o sujeito tomou as devidas precauções durante a pandemia. Ao contrário de amigos próximos, que diziam se cuidar enquanto viajavam, curtiam uma praia, iam a bares e restaurantes e usavam suas máscaras penduradas na orelha ao devorarem o belo prato à frente, a pessoa em questão seguiu à risca as melhores práticas do isolamento social. Deixou de ver amigos, família, em nome da saúde sua e dos próximos. Aí vem a vacina e pronto. Todos protegidos!

Durante o isolamento seu suporte emocional foi uma terapia em grupo que semanalmente e online dava dicas de como superar esse difícil período. O “mais difícil desde a época da gripe espanhola”, dizia o guru coordenador do grupo. O segredo para enfrentar a batalha do milênio é, de acordo com o tal mestre, trabalhar a “positividade”. Pensamento positivo. Queira bem aos que o cercam, não são inimigos, apenas diferentes. As dificuldades serão eliminadas se conseguirmos nos comunicar melhor com o outro e com nosso “eu subjetivo”. Aprenda a se comunicar, busque as convergências, pratique o auto amor e você estará pronto para o próximo módulo do curso, que ensinará, sim, é possível, a criar a sua própria realidade.

O herói sobrevivente, guerreiro armado de palavras “boas”, um “Mad Max” bem-intencionado, irá pregar a “positividade” num mundo em frangalhos. Antes, porém, de exercer sua liderança propositiva – palavra forte, máscula, proparoxítona que ouviu no curso e lhe pareceu conveniente ao exercício de sua missão – o futuro líder tira uns dias para o merecido descanso. Afinal, ninguém é de ferro. Fala com o chefe, resgata as férias vencidas e sai para uma viagem, a que chama de retiro reflexivo.

Nosso herói compra uma passagem de ida e volta para o interior do estado. Ônibus leito, o hotel de duas estrelas onde se hospedará fica ao lado da rodoviária, nem precisa de táxi. Na internet, o site do estabelecimento propõe uma hospedagem rústica, café-da-manhã incluso, perfeito para a realidade da sua conta bancária. Na viagem para o recanto, respira fundo uma, duas, três vezes. Deitado no confortável leito, expira todo o ar negativo. Relaxado e meditabundo, imagina-se então num voo para Paris, seu corpo abraçado pela poltrona da primeira classe. Ao chegar no hotel, pedirá uma taça de vinho e, pela janela do quarto, observará o caminhar dos transeuntes num final de tarde à beira do rio Sena.

No seu devaneio, o sujeito toma emprestadas as palavras do guru: “Basta querer. Imagine a sua própria realidade que o universo conspirará a favor”, a despeito do que o mundo real lhe mostra. Ótimo, é torcer para dar certo. Mas nem sempre dá.

Tomemos como exemplo o caso do atual mandatário do executivo nacional. Enquanto candidato ao posto máximo no governo, poucos acreditavam na sua capacidade destrutiva. O discurso radical seria posto de lado ao assumir o poder. Ao projetar um presidente pacificador, boa parte dos seus eleitores fechou os ouvidos às palavras que mostravam a realidade psíquica de uma pessoa perversa, preconceituosa e incapaz de comandar a administração pública federal. Ao negar a violência de seu discurso, acreditaram votar em alguém que construiria um país melhor destruindo tudo o que está aí. O resultado desse devaneio, esse sim, está aí: mais de 200 mil mortos pela covid-19, mais de 14 milhões de desempregados e sem perspectiva de melhora.

Pensamento positivo! No livro “Sociedade do cansaço” (Ed. Vozes, 2ª edição ampliada, 2017), o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han descreve os problemas decorrentes do excesso de positividade, dentre eles a depressão. A violência da positividade, segundo o autor, se desenvolve numa sociedade permissiva e pacificada. Sufocados pela pressão por desempenho, deuses de nós mesmos, não damos conta de realizar tudo o que nosso potencial ilimitado exige. Como eu, com todo meu potencial, não sou capaz de criar minha própria realidade, moldar o mundo à minha maneira? Vem então a sensação de fracasso.

É interessante considerar que existe um mundo que se move alheio à nossa quase infinita capacidade de ensimesmar-se. Olhar para o outro, ficar esperto com o que diz, geralmente é útil. Nem que seja para evitar acreditarmos em discursos de hipócritas de plantão, dispostos a bajular nossa autoestima com palavras rasas, de fácil entendimento.

Na mitologia, Narciso definhou ao contemplar sua própria imagem na superfície do lago. Pode ter morrido ao afogar-se nas águas, segundo outras histórias. Mas nos tempos atuais, imediatistas, talvez o seu fim fosse outro: em vez de afogar-se ou definhar, decerto racharia o crânio ao dar de testa com a superfície espelhada de águas rasas.

Publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores-SP.