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Um doce Brasil

Jornal do Brasil CARLOS FERNANDO ANDRADE*

Por Franz Post, dos céus, Moisés o maná recebia. O holandês, porém, sem representá-lo no árido Sinai, preferiu que Jeová lhe despejasse abacaxis, cajás e graviolas.
Apetitosas,suculentas... lascivas, contudo, não foram as frutas tropicais que atraíram o pintor, ou seus mecenas, ao Nordeste para recriar a cena bíblica, ora exposta em um Museu de Roterdã. Foi cana que, por sinal, nem fruta é.
É caule. Que, saindo da moenda, criou uma quinhentista revolução industrial e fez eclodir o primeiro conflito global.O mundo inteiro, à força ou não,participou do feito.Cana: da Índia, os portugueses levam-na à Madeira. Já aqui dizimam autóctones, tomando inimaginável extensão de tabatinga. Faltando braços, a África é ceifada de milhões de seres humanos e, por fim, negociantes holandeses completam o trabalho, distribuindo o produto. Açúcar!
Há séculos, dada a impossibilidade de transportar cana, que apodreceria no trajeto até os mercados europeus, impôs-se o beneficiamento: surgem os engenhos. Mas ainda há quem evite chamá-los “indústrias”, embora signifiquem “máquinas”. Engenhoca, engenheiro, engenhoso. Sacou?
E assim, perpassando temas como incêndios e o coisa ruim, fui levado, recentemente, pela amiga e arquiteta Vitória Andrade, a vivenciar as paisagens de Post: antigos engenhos, algo íntegros, já isentos da função de moer cana, mas ainda imersos nos canaviais pernambucanos, ao contrário dos congêneres cariocas, engolidos pela urbanização: de Dentro, Novo, da Rainha...
O abandono do aqueduto do Engenho de Jacarepaguá, que Rogério Daflon nos apresentou aqui no JB, realça o esforço da colega de Recife para criar a Rota dos Engenhos do Norte, algo que, comum alhures, aqui é raro.
Há que enfrentar e melhorar estradas vicinais, criar projetos social e economicamente sustentáveis e lidar com proprietários, não mais senhores de engenho, mas donos de tesouros, mal valorados, mesmo diante de capelas rurais que em nada ficam a dever em acervo pictórico às igrejas do Rio ou de Salvador. A opulência dos anos em que o Brasil adoçou o mundo, e provavelmente o fez mais obeso, é notável.
A indústria açucareira foi o principal elemento de urbanização nas áreas em que foi produzida. Distribuídos ao longo da rede hidrográfica que serpenteia a baixada, um sem número de pequenos portos fluviais enviava a produção para aquele que centralizava a navegação ultramarina: o Rio, como Recife, deve sua condição urbana aos engenhos e a esses pequenos entrepostos.
Inhaúma, saibam vocês, foi um porto fluvial importante, quando o Rio era uma das esquinas do mundo. Irajá foi a primeira Freguesia criada fora do centro da cidade. Iguaçu, Inhomirim, Macabu serviam animados portos. Lysia Bernardes, grande geógrafa, afirmava que o Rio só existe porque em volta dele havia uma baixada e rios navegáveis.
Entender melhor essa relação, rompida com a vinda da Corte, fato que ainda habita algumas mentes apressadas – ou atrasadas – talvez nos ajude a criar, em horário eleitoral, um projeto para o quarentão, recriado pela Fusão, cujo jeitão – petróleo à parte – é tão antigo quanto sua incorporação ao projeto colonial português.
Por contradição, propugno substituir os canaviais, dos quais só se colhe atraso, mas que ocupam algo como 15% do território do estado mais urbanizado do país. Se há séculos, a cana foi estratégica, hoje o Rio reclama nova rota. Conhecer a história é essencial até para corrigir efeitos seculares. Preservem-na, pois.
Por fim, retornando encantado ao tropicalismo seiscentista holandês, fui atrás de alguma reprodução do quadro, retrocitado, e sapeco uma pergunta, em inglês, obtendo em troca: “Post? What Post? Post-modernism, post impressionism? ”. Ficando sem o maná de Franz Post, restou a piada. O que não é pouco, tendo em vista o aspecto das nuvens.
Preserve o bom humor, Patrimônio Nacional sob ameaça: #Elenão.

* Arquiteto – Urbanista, DSc



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