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Suicídio entre as mulheres

Jornal do Brasil LÍDICE LEÃO*

Precisamos voltar a falar sobre suicídio, afinal, o mês é Setembro Amarelo, período de combate ao sofrimento extremo que culmina no fim da própria vida. Precisamos voltar a falar sobre violência contra a mulher. Fator citado nas recentes pesquisas como impulsionador das tentativas de suicídio feminino. O fato de precisarmos voltar a falar pode ser apontado como um agravante do quadro: o cenário se repete, por isso a necessidade da repetição do destaque ao assunto. Repetir, jogar luz, apontar as causas, noticiar são formas de combate. O grave é constatar que enquanto houver mulheres vítimas de violência doméstica, haverá mulheres que tentam o suicídio.
A relação entre violência doméstica e suicídio não foi feita neste artigo de forma empírica. Foi citada numa afirmação da diretora de vigilância de doenças e agravos não transmissíveis do Ministério da Saúde, Fátima Marinho, baseada em pesquisas. Assim como ela citou o desemprego como fator de risco nas tentativas de suicídio entre homens, apontou a violência doméstica como motor da tragédia entre as mulheres. Na declaração que Fátima Marinho fez aos jornalistas em entrevista coletiva durante a divulgação do boletim epidemiológico do governo federal, a diretora da pasta foi categórica ao afirmar que o risco de a violência doméstica desencadear tentativas de suicídio não se limita às mulheres, esposas, mães ou namoradas. Mas se estende às adolescentes e até mesmo às meninas em idade infantil que sofrem agressões físicas e psicológicas dentro de casa, por parte de familiares.
Não é demais ressaltar que o ato extremo do suicídio, ou a tentativa “de”, pode ser interpretado como o ponto final em algo do qual não se consegue fugir. Ou o encerramento de uma dor aguda que – para a vítima – não tem mais esperança de cura. Ou seja, quem tem um mínimo de empatia ou alteridade – para usar palavras que estão na moda nos discursos, mas continuam com significados desconhecidos na prática – não deixa de imaginar o sofrimento experimentado por uma pessoa (aqui estamos falando de mulheres) antes de tomar a decisão radical de praticar, ou tentar, o suicídio.
O objetivo inicial deste artigo não era citar números. Porém, existe um índice novo que precisa ser mencionado: entre 2000 e 2016, a taxa de mulheres que tiraram a própria vida aumentou 50% em todo o mundo, contra 21% entre os homens. Sinal amarelo no Setembro Amarelo. Entre as tentativas, as mulheres também seguem na frente. Voltando aos fatores de risco, à violência doméstica, ao machismo que mata, nunca um planejamento de apoio às mulheres foi tão urgente por parte de órgãos governamentais quanto agora. Em um momento em que o grupo de risco formado por vítimas de violência doméstica engloba meninas, é urgente que autoridades ajam de forma rápida e contundente para fazer com que o Setembro Amarelo não seja só mais uma campanha “bonitinha”. A formação de grupos de apoio é uma sugestão de combate ao problema. Profissionais de referência em psicanálise, como René Kaës e Pichon-Rivière, pesquisam há décadas os efeitos dos grupos e dos vínculos na formação do sujeito, na forma como ele pensa e age. Partindo desses estudos, fica aqui a sugestão de formação de grupos com as mulheres vítimas – para que saiam de outro grupo: o de risco do suicídio. E também – por que não? – com os homens agressores. É preciso que esses homens – os que já tenham feito ameaças ou praticado alguma forma de agressão – saibam quais são as punições previstas na lei para crimes como esses. Ressaltando a sugestão: grupos de apoio para as vítimas e grupos de conscientização para os agressores. Afinal, prevenir ainda é o melhor remédio. Também para as doenças sociais.

* Jornalista



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