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O mal adquirido na sociedade moderna

Jornal do Brasil CLAUDIA BARBOSA*

O que é o mal? Antes de ir à questão é preciso admitir que há algo, alguém, que julga eventos ocorridos e dirá (ou silenciará): isto é bom, isto é mau. Na natureza, criador e criação se mesclam e se modificam em novas figuras que se sobrepõem. Renovação que por vezes pode parecer cruel. Cruel? Aos olhos de quem? Deus? A razão? Os sentidos? Parte de um é outro. E talvez todos sejam o mesmo. Ainda assim, a visada que nos cabe é a humana, e com ela partimos ao tentar investigar o mal e suas causas.
Na atual crise civilizatória, parece-nos fundamental o que propõe a filósofa alemã Hannah Arendt ao relacionar a sociedade à normatização, e ao mal banal. Sessenta anos após a publicação de sua obra seminal - “A condição humana” - vivemos em uma globalização que, mais do que diminuir desigualdades econômicas, políticas e sociais, as tem ampliado. Uma mundialização que vestida de solução ética promove uma homogeneização cultural, de tal modo que a necessária pluralidade de ações e culturas humanas – a intersubjetividade indicada por Arendt – mostra-se cada vez mais distante. Com um receituário nas mãos, nações e pessoas submetidas às grandes economias, em situação pré-política, obedecem cegamente. Sem reflexão, pelo desespero da miséria, do desemprego e pela inexpressão heterodoxa, assistimos à ascensão de lideranças conservadoras que acenam com protecionismo, salvaguarda de valores morais e preservação de fronteiras. Ao mesmo tempo, pontuais movimentos de jovens, com reduzida participação política histórica, tomam praças no mundo, indignados, mas sobretudo preocupados em assegurar um lugar de pessoa “comum” – com emprego, contas a pagar, família, rotina – na própria sociedade vigente. Vemos com Arendt que medo e obediência são sinais de uma doença que nos afasta da condição humana, isto é, do livre agir, onde se assumiria a imprevisibilidade do novo. Sem esse antídoto, segundo Arendt, é impossível enfrentar o mal banal que vai contaminando os entes comuns, produtivos, “colaboradores” da sociedade.
Nesse sentido, o pensador francês George Steiner discorre sobre a Europa, cenário das duas grandes guerras e do nazismo, além de local dotado de grandes contribuições para a cultura e civilização. Paradoxo? Muitas sociedades europeias, que ultrapassaram o período material, pré-político, apontado por Arendt, e que teriam enfrentado a complexidade da condição humana ao explorar a razão, o pensamento e as artes, sediaram também as grandes barbáries: “A Alemanha, país de Hegel, Fichte e Schelling, (...) conheceu a pior das barbáries. (...) Como certos homens podem escutar Bach e Schubert em suas casas à noite e, pela manhã, torturar nos campos?”.
A partir desses fatos, Arendt engendra o conceito do mal banal – mal supostamente praticado pelo indivíduo “comum”, fruto da sociedade ocidental constituída a partir do século 18, que privilegia o privado frente ao público e impõe regras que não são amplamente debatidas nem espelham a pluralidade dos seres humanos. Segundo Arendt, a sociedade que transforma ação em comportamento impede o exercício da política: “Ao invés de ação, a sociedade espera de cada um dos seus membros um certo tipo de comportamento, impondo inúmeras e variadas regras, todas elas tendentes a ‘normalizar’ os seus membros e fazê-los ‘comportarem-se’, a abolir a ação espontânea ou a reação inusitada”.
Ouvir Arendt na contemporaneidade significa refletir sobre uma moral que se mantém adestrando comportamentos e desestimulando a ação livre. O período moderno, percebido por Rousseau (ao reivindicar a expressão do íntimo) e tão bem descrito por Arendt, pode ter criado uma base universalizante que retira a responsabilidade e a liberdade de escolher e de trazer o novo – próprio a cada um. Nesta sociedade, em que a ação foi substituída pelo fazer, as regras morais que criam hábito recebem rótulos “éticos”, assim como comportamentos irrefletidos podem passar por ações, que longe estão do extraordinário de Arendt. O ser banal, aquele que segue a rotina indicada (muitas vezes coagido por estados totalitários), torna-se incapaz de discernir bem e mal.
Embora para muitos o desenho do mal de Arendt tenha traços pessimistas, parece-nos o contrário, já que traz as características singulares da condição humana como antídoto ao mal banal. O caminho do bem estaria aberto à humanidade que se propõe a realizar sua natureza; ao fazer valer a ação livre, onde mais do que escolher entre o que já está dado, dá-se no desabrochar do plural.

* Doutora em Filosofia e pesquisadora do Pragma (Programa de Estudos em Filosofia Antiga), da UFRJ



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