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Procuram-se rostos para uma cidadania

Jornal do Brasil LINDOBERG CAMPOS*

Passados 196 anos do “grito” do Ipiranga, há uma espécie de ressaca de quarta-feira de cinzas. À revelia da alegria de uma festa carnavalesca, nossa ressaca se dá em parte, ou na totalidade, pela constatação brutal de que, pelo menos desta vez, deixaremos gravada como herança na memória nacional incêndios, facadas, violência crônica e discursos carentes de práticas.

No dia em que comemoramos a assinatura do rompimento de subordinação à Coroa lusitana fomos surpreendidos pelo incêndio que pôs abaixo parte da nossa história, exatamente no prédio onde nossa “liberdade” foi assinada. Não bastasse possuir um significado ímpar na conturbada história da brasilidade, o edifício também abrigava o fóssil da nossa primaz ancestral, que foi consumido pelo fogo. Depois de resistir a séculos de intempéries não foi capaz de resistir ao nosso crônico descaso para com o patrimônio público e nossa negligência memorialística. Iniciamos uma nova fase ainda com a visão turvada pelas cinzas do nosso tesouro perdido e com o peso de uma responsabilidade que ainda não sabemos se somos capazes de carregar.

Um museu que se vai leva consigo parte de nossa história. As filhas de Zeus e Mnemosine (Memória), símbolos máximos daquilo que uma civilização almeja, hoje jazem sob os escombros da instituição que deveria ser bastião daquilo que desejamos para um futuro democrático e fraterno: responsabilidade com o passado e compromisso com o futuro. A poucas semanas das eleições que definirão nossas perspectivas, ainda estamos perdidos num labirinto sem memória, buscando rostos, nomes e símbolos que de maneira rápida e instantânea nos saquem da brutalidade que pouco a pouco nos enredamos. Paradoxalmente, na semana que perdemos o crânio da “primeira” brasileira, ganhamos, graças à tecnologia, o rosto do controverso proclamador de nossa Independência.

Não é de surpreender que nossa memória, e desta forma nosso futuro, esteja condenada ao limbo do esquecimento. Escrevemos letras belíssimas na Constituição de 88, que fariam arrepiar qualquer revolucionário francês do século 18. Mas letra sem aplicabilidade é discurso pragmático e oportunista; no Brasil, como diria Braz de Souza Arruda, “o indivíduo sempre foi letra morta”, e pouco ou nada importa-nos o diálogo quando o que se está em jogo é uma verdade absoluta defendida com todas as forças. Enforcamos Tiradentes porque não aceitávamos seu discurso crítico e contundente; fuzilamos Frei Caneca, pois não aceitávamos que provincianos pudessem ser protagonistas de uma independência; açoitamos e matamos incontáveis negros, pois eles “não têm alma”; dizimamos (e ainda queremos dizimar) populações indígenas inteiras em nome da riqueza, da ordem, do progresso e da fé torpe; silenciamos Chico Mendes, Dorothy Stang e Marielle porque gritos de clamor, denúncia e protagonismo nos são caros ainda. Silenciamos Canudos, pois vozes interioranas jamais podem ditar os rumos de uma civilização. Não bastasse isso, ainda sucateamos a máquina pública e abandonamos nossas instituições culturais porque conhecimento é poder, e o poder deve ser restrito a poucos “esclarecidos”.

Somos messiânicos até na alma. Necessitamos de um ser ou de uma instituição que, dotado de elementos extraordinários, nos tire do embrutecimento e do empobrecimento da vida. Os acontecimentos da última Semana da Pátria fizeram emergir cadavéricos discursos de louvação, e nostalgia, a um sistema monárquico apregoado como belo, homogêneo e universal. Discursos palacianos que se revestem de um populismo barato e oportunista para congregar seguidores a defenderem privilégios a uma minoria em nome de uma falsa esperança. O Republicanismo ainda é algo a ser conquistado, lapidado e só então usufruído. Uma independência efetiva se faz no pelejar diário do debate das ideias na arena da razão comunicativa, na abertura ao diferente; é no coletivo que se constrói, na preservação das instituições que guardam nossa memória e na sua eterna ressignificação. Uma independência se constrói na “invasão” estudantil aos nossos museus, na “apropriação” dos espaços públicos; o grito de liberdade cotidiano de Josés e Marias que formam de fato um espectro diverso e múltiplo de rostos que constroem e reivindicam uma cidadania plena e eficaz.

Enquanto a utopia não se realiza, pelo menos deixemos viva a possibilidade de sonhar, para que, aliada ao último elemento da caixa de Pandora, ela possa se erguer das cinzas como uma Fênix a revelar os rostos de nossa brasilidade tão almejada, sonhada e construída ao longo dos anos. Assim, em meio a tantas peripécias, vamos gravando na imemorial linha do tempo nacional tentativas frustradas e incompletas, mas necessárias, de nossa identidade nacional.

* Livre pesquisador do Ateliê de Humanidades, professor de escola pública e doutorando em literatura (PUC-RJ)



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