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Personalidade presidencial

Jornal do Brasil CARLOS ALBERTO RABAÇA*

Estou convencido de que devemos observar atentamente o senso de humor e de proporção dos candidatos à Presidência da República. Só uma pessoa verdadeiramente fora do comum pode resistir à tensão de uma campanha eleitoral. Talvez essa tensão seja o teste mais importante a que é submetido um candidato à Presidência. A aspiração é requisito indispensável, mas é preciso ter grande ambição para suportar uma disputa eleitoral. Precisamos de aspirantes que sejam capazes de responder a perguntas sem sentirem vergonha; que estejam em condições de imprimir cunho pessoal à Presidência sem se isolarem do povo; que possam impor sua liderança sem se tornarem ditadores. A população conhece os perigos da política de paranoia e de vingança e sabe que a Presidência é importante demais para ser ocupada por indivíduos que considerem a represália e a desunião como instrumento de poder político. Necessitamos de líderes capazes de despertar as qualidades de justiça e compaixão que sempre caracterizaram a população brasileira.

Os políticos que conhecem os problemas que nos afligem e que propõem soluções justas e humanas não poderão faltar ao país nos momentos de crise. Aqueles que se mostram humildes, moderados e reconhecem, como observava o saudoso Santiago Dantas, que “o espírito da liberdade é o espírito que não está tão certo de que tem razão”, não irão exceder os limites constitucionais do poder presidencial. A este maior interesse da população pela personalidade e caráter de nossos candidatos deve-se somar maior consciência da necessidade de reformas institucionais. Essas devem ser aprovadas e executadas de maneira responsável. E devemos reconhecer que ninguém, nem mesmo o futuro presidente, tem as respostas para todas as perguntas e a chave da sabedoria. Encaremos com novos olhos não só a Presidência, mas as instituições que a cercam. Se o Congresso, a Justiça, os partidos políticos e a imprensa desempenharem suas funções com firmeza e honestidade, é bastante improvável que novos casos de abusos do poder presidencial venham a ocorrer no futuro. Para que essas mudanças institucionais sejam possíveis é necessário que o Parlamento esteja firmemente disposto a colaborar. Na verdade, a reforma do Congresso é tão importante quanto a mudança da Presidência e pode ter influência decisiva para que o Executivo cumpra bem seus desafios.

O maior obstáculo ao exercício arbitrário do poder presidencial deve ser a vigilância do povo. É o povo que deve definir as metas do Executivo e a forma de atingi-las. No futuro deveremos exigir que o novo presidente se defronte com os interesses e necessidades da população, além de impedir que ele contrarie a Constituição. Franqueza não é o presidente mostrar suas cicatrizes ocultas, mas revelar honestamente à sociedade civil a verdade a respeito de sua política de governo. Responsabilidade não é o presidente preparar seu próprio desjejum, mas consultar o povo e autoridades antes de tomar uma decisão importante. As ações imediatas são importantes, pois revelarão muita coisa a respeito da sua personalidade. Mas a forma de pensar e a percepção da realidade são ainda mais importantes, porque influenciam os tipos de decisão que o mandatário adotará. Reformas institucionais podem ajudar a definir os limites da conduta presidencial, mas apenas o próprio presidente será capaz de determinar a qualidade dessa conduta.

* Sociólogo e professor



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