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Na margem de erro

Jornal do Brasil ADHEMAR BAHADIAN*, bahadian@jb.com.br

Não sei se o leitor está seguindo o telecurso eleições 2018. Nada mais ilustrativo do marketing eleitoral eletrônico com fumos de sofisticação política. Toda santa noite, sentam-se em roda ilustríssimos comentaristas políticos com ar de sumidades em numerologia e astrologia. E toma de jogar gráficos e números na tela. O teatro seria cômico se não fosse ridículo. Nós, aqui, pobres eleitores loucos para ver um debate informativo sobre o futuro do país, e os caras falando sobre a queda de meio ponto percentual do candidato “X” e as possíveis consequências sobre a inclinação da Torre de Pisa. É bem verdade que o modelo não é novidade. Os comentaristas econômicos costumam fazer a mesma coisa nos jornais televisivos. Os grandes astros são as cotações da bolsa e do dólar. O dólar caiu: o Brasil entrou em franca recuperação. A bolsa caiu, os investidores perderam sua confiança na segurança jurídica. Nem uma palavra sobre os especuladores da bolsa ou do câmbio. E la nave va.

Fico pensando: será que esses caras acham que estão enganando alguém? Porque tem muita gente que segue essa roleta como se fosse a Mega-Sena. Certos casais, antes de dormir, não deixam de dar uma mordidinha recíproca, principalmente quando torcem por candidatos diversos: “Finalmente vamos acabar com essa pouca vergonha, viu?”. Em seus comentários, nossos ilustres jornalistas sutilmente extrapolam a mera análise e incidem em velada promoção ou desconstrução dos concorrentes. Tudo com pinta de neutralidade científica. Está certo. Enquanto isso, o pau está comendo nos bastidores.

O coordenador econômico do PSDB, Persio Arida, chama seu colega do PSL , Paulo Guedes, de mitômano e repele a estupidez de seu programa. Vejam que potencial para um debate sério e ilustrativo para a distinta plateia. Se os canais de televisão juntassem três ou quatro economistas de diferentes orientações e promovessem uma análise tão profunda quanto possível sobre as repercussões deste ou daquele programa, certamente nosso entendimento seria melhor e não se limitaria ao molho ideológico de que são revestidos, quando apresentados pelos próprios candidatos. No caso do PSL, a situação é ainda pior, porque seu ilustre economista não comparece sequer quando convidado para debates. Deve ser timidez. Prefere falar para audiências selecionadas onde destila suas ideias e seu neoliberalismo de arrepiar, com promessas de vender tudo o que for vendável, em nome do equilíbrio das contas públicas, de um lado, e enriquecimento da patota, de outro. Aliás, a revista inglesa “The Economist” publicou na semana retrasada uma análise sobre o desvirtuamento dos princípios liberais nos dias que correm. A revista, como se sabe, é talvez a mais respeitada por sua coerência em defesa do liberalismo clássico e nunca fez disso segredo. 

No número da semana passada, lançou um manifesto em favor de uma restauração dos princípios liberais, antes da reviravolta neoliberal que estamos vivendo hoje. Embora numa linguagem cautelosa, o ensaio, de cerca de dez páginas, não deixa de condenar a perversão do liberalismo clássico trazida pela ideologia neoliberal. Condena a evidente iniquidade dos desníveis de renda nos países desenvolvidos e prega a retomada de um sistema de proteção social do trabalho assalariado. Aponta, com clareza, para os riscos que corre a democracia nos países da Europa e nos Estados Unidos. Propõe a necessidade de um novo sistema econômico internacional em que se reconstruíssem novos pilares menos azeitados pela cobiça do globalismo financeiro.

Na semana que passou, a “The Economist” alertou para a ameaça à democracia brasileira com o controvertido candidato Bolsonaro, atualmente se recuperando de um antidemocrático atentado. O Brasil, diz a revista, pode se arrepender caso o eleja. Compara-o aos atuais títeres das Filipinas, da Hungria e dos Estados Unidos. No eleitorado do PSL, essa última condenação é entendida como apoio. Parece que o candidato adora a comparação e pretende seguir o modelo. Os Estados Unidos devem estar encantados. Capaz de Trump twitar. Maravilha.

 

* Ex-embaixador do Brasil na Itália (e-mail: bahadian@jb.com.br)

 



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