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Mercado acima das leis

Jornal do Brasil ÁLVARO CALDAS*

Dólar e bolsa de valores entraram em seu previsível espetáculo de chantagem pré-eleitoral, fenômeno que ocorre toda vez que um candidato de esquerda, que põe em risco a alta lucratividade de seus negócios, ameaça chegar à Presidência da República. Eles não aceitam, e se consideram donos de um poder maior do que o do voto. Foi assim com Lula e Dilma e agora chegou a vez de Fernando Haddad, todos do PT, mas poderia ser com candidatos de outros partidos não liberais. O dólar disparou com a iminência da eleição de Lula em 2002, quando foi criado o “lulômetro” que refletia sua posição nas pesquisas.

Tratado com respeito e benevolência pelos colunistas de jornais e economistas, o tal mercado é apresentado ao público como um ser invisível, intocável, quase místico, dotado de poderes sobrenaturais, capazes de desestabilizar a economia e interferir nos destinos políticos do país. Um monstro que age acima das leis e não respeita as regras da democracia. De fora, os leigos podem imaginar o mercado como um lugar onde centenas de pessoas negociam suas mercadorias, no caso papéis. Essa é uma ideia completamente falsa, segundo o economista Paulo Kliass. “O mercado financeiro, e em especial o mercado de divisas, são operados por poucos e grandes agentes, os gigantes do sistema financeiro, um punhado de bancos, instituições financeiras e multimilionários”.

Noticiam os jornais que o cenário eleitoral acelerou a valorização do dólar comercial, que chegou a R$ 4,20, a maior cotação dos últimos 24 meses, desde o início do Plano Real. A ação é puramente especulativa, com o objetivo de aumentar seus ganhos no curto prazo. Nada tem a ver com o desempenho da economia e apenas reage à alta do candidato petista nas pesquisas eleitorais. Os grandes senhores participantes do mercado financeiro não demostram nenhuma preocupação com o perfil fascista do candidato de extrema-direita, que lidera as pesquisas. Consideram que seus negócios e seu poder sobre a economia serão mantidos.

Não se espere da grande imprensa nenhuma informação sobre as entranhas do tal monstro, que age livremente em suas operações não visíveis a olho nu, em que os papéis trocam de lado e ninguém vê a cor do dinheiro. Que vai parar em contas bancárias no exterior, claro. São transações tratadas como se fizessem parte de uma lei natural, acima de qualquer suspeita, e, sobretudo com a conivência do Banco Central, que olha à distância e não interfere.

Normalmente só escrevem sobre o mercado os chamados especialistas, economistas ou jornalistas de economia. E o fazem com reverência e temor. Os adjetivos usados são os mesmos, “o mercado está nervoso”, é pautado pela “irracionalidade”, é “imprevisível”. Nada quanto ao conteúdo das operações, que expressam o movimento de poucas e grandes instituições do mercado financeiro, fazendo uma chantagem emocional e politica contra a sociedade. Anunciam uma catástrofe que poderá não ocorrer, colocando pressão sobre os próprios líderes políticos.

Desta forma, ao mesmo tempo em que faturam alto e interferem na campanha eleitoral, esses agentes pressionam para a nomeação de um ministro da Fazenda favorável aos interesses dos grandes bancos. A conceituada economista Monica de Bolle levantou outro aspecto dessa incestuosa relação. Pesquisas são encomendadas pelo próprio mercado financeiro sem nenhuma supervisão, “com o potencial de mexer profundamente com o voto útil do leitor que as acompanha”.

De fato, não se trata de um mercado para amadores. A não ser que esteja em questão o outro mercado, aquele que todos conhecemos, em que vamos para fazer as compras do dia e do mês e pagamos com o cartão de crédito. Podemos reclamar dos preços, mas o negócio é às claras.

* Jornalista e escritor



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