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Piada pronta

Jornal do Brasil CARLOS FERNANDO ANDRADE*

Abram? Mas não é essa a ideia contrária?
Se Temer foi logo fechando a pasta da Cultura, assim que tomou o Planalto, “Fechem” melhor lhe sairia: eis a piada.
Não riram? Mas não me abandonem, insisto. Se a semanas de uma eleição troca-se uma única letra de um órgão recém-criado, Ibram, e dinheiro passará a jorrar, como água de carro-pipa alugado... eu, que ainda tenho 3.200 caracteres adiante, posso continuar tentando.
Sai o “I”, entra o “A” e mangueiras e cofres serão irrigados a ponto de atender ao Ministério Público, que pediu o fechamento de meia dúzia de museus do recém-extinto órgão, e à Justiça que lhe concedeu um mês para tomar jeito, quando a única coisa que as gavetas oficiais aguardam, mais uma vez, é serem esvaziadas. Que, ao menos, não me queimem os arquivos, que de chamas já as temos em trágica proporção.
Mas ainda vos percebo sisudos. Pois imagine, caro leitor, que da queima de um museu, ligado a um ministério, o outro é que saiu chamuscado. Aquele mesmo que, até aqui, só havia se notabilizado, quando um de seus órgãos, o Iphan, derrubou ministros: o seu próprio e o detento Geddel.
Sigo escrevendo. E por que não? Pois se seguem governando... Mas a lembrança de malas cheias de dinheiro, se me confundem com labaredas, me pergunto quantos orçamentos de museu caberia naquela cena?
Precisa mesmo de agência, ministro, ou de um dedal de decência?
Bela rima, mas não é solução, pois, além de malas repletas, o aval dos bombeiros, tão propalado, tampouco resolve. Que fale o Código de Prevenção e Combate a Incêndio e Pânico.
Começando pelo fim e abstraindo-se da síndrome que por vezes nos ocorre, podemos imaginar que terá sido essa a motivação para que o Ministério Público tenha cogitado fechar museus: evitar o pânico, pois a única diferença entre museus abertos e fechados é a presença de visitantes.
Poupar o distinto público nos parece, aliás, de bom alvitre, principalmente se o cuidado for extensivo a todos os espaços que acolhem multidões, o que, infelizmente, não é característica dos espaços museológicos, mas sim dos incontáveis templos de diferentes denominações que pululam por esse imenso Brasil. Alguém sabe dizer se a multidão de fiéis, em comunidades pobres e periferias, tem, além de deus, no que confiar em caso de incêndio e pânico? Alô, prefeituras, Crea e CAU: rezem por nós!
Mas sigamos. Prevenir o pânico, deixo aos profissionais da saúde, mas prevenir o início e a propagação de um incêndio inclui, desde coisas simples como evitar a infeliz conjugação de papel acumulado, fio desencapado e gambiarras diversas, até sofisticados sistemas de alarme, mas, principalmente, uma muito bem treinada brigada de incêndio. Mas, pena, já vejo o jornalão neoliberal acusando os museus de aumento abusivo de pessoal.
Porém, soa o decantado alarme! Sabemos que água não dorme em hidrante, mas saracoteia mundo afora. Mangueiras ou rede de “sprinkler”, de que os projetos de segurança tanto apreciam, secos, não vão funcionar...
Mas e se funcionarem? Salva-se o prédio e arrasamos os acervos? Que tal esguichar água na Bíblia de Mogúncia? E se o prédio tem paredes ricamente decoradas, tetos artisticamente guarnecidos, é para furar tudo e embutir os tubos ou passar por cima das rocailles? Aquilo que combate o fogo que devora o supermercado é aplicável à catedral?
E nessa refrega entre os que mandam e os que aprovam, os projetos vão sendo postergados até que a morte, de prédios e acervos, os unam – e a nós todos – em tardio lamento.
Quem sabe daí sairá a concertação entre gestores, órgãos de proteção e forças de segurança, com a firme participação de prefeituras e conselhos profissionais, até concluírem que é preciso tratar desigualmente coisas desiguais?
Felizmente, ouço dizer, temos um coronel bombeiro à frente da Secretaria de Estado de Cultura.
Agora, percebi o esboçar de um sorriso?

* Arquiteto – Urbanista, DSc



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