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Entre a pobreza de espírito e o espírito do pobre, o que temos?

Jornal do Brasil CARLOS FERNANDO GALVÃO*

“Só porque a água está calma, não quer dizer que não haja movimento no fundo que não conseguimos ver” (Kerry Brown, diretor do Instituto Lau China do King´s College – Inglaterra). Desde o Plano Real, e com medidas como o Bolsa Família não foi diferente, os ricos ganharam mais, os pobres ganharam mais – ou melhor seria dizer passaram a perder menos – e a classe média (média média, média baixa e média alta) pagou a conta, distanciando-se cada vez mais da classe rica e aproximando-se, cada vez mais, da classe pobre. Eis a origem do ódio de classe (média) ao PT e aliados de esquerda e de centro (eles “não cuidaram” da classe média, majoritariamente urbana – os paneleiros, em bom português).

O filósofo Vladimir Safatle (USP), no artigo “A produção do caos”, afirma que a brutalidade das relações de classe no Brasil acabou, ao menos por algum tempo (um bom tempo, diria) com os espaços simbólicos para pactos e compromissos, e o golpe e o processo de exceção contra Lula seriam a prova cabal dessa situação. Diz o ditado popular que “farinha pouca, meu pirão primeiro”, e nossas elites, das mais vorazes do planeta, não deixa por menos. Tudo o que vem acontecendo, em termos políticos, neste país, desde o golpe parlamentar de 2016, recebeu a chancela de boa parte do MP e do Judiciário, que se acham a avant-garde da ética e da cidadania, sem o serem. Afinal, fazem coisas como legalizar o ilegal, para seu próprio benefício – como os vários auxílios que burlam o teto constitucional, mais do que furado, em exemplo disfarçado, mas nítido, de corrupção com dinheiro público. Por outro lado, agem fora da lei, explicitamente, com a justificativa de... garantir a lei – e a democracia! Seria risível, não fosse a trágica essa expressão do “jeitinho brasileiro”, levado ao extremo do elitismo, em nome de ideias... de classe (rica e poderosa).

A caçada política ao que acham, essas elites, ser a “ratazana petista prenhe”, como a nítida perseguição a Lula bem o demonstra, e só não vê quem não quer, fazem desta uma democracia de fachada e deste país uma típica república bananeira, tudo sob o aplauso de incautos, inconsequentes, para não esquecer dos simplesmente mal-intencionados, mesmo. E o mundo vê isso. Se assim não fosse, Lula não teria recebido aval de intelectuais, ex e atuais chefes de Estado, da ONU... Petistas são santos? Não. Muitos erraram, sim. Mas são demônios? Também não e acertaram muita coisa e, por acertos, são caçados. Outro problema é que parte da esquerda que não é petista também acaba sendo demonizada. Isso é preconceito e luta de classe na veia.

A Lava Jato deve acabar? Bem, o combate à corrupção não deve acabar, porque ela não vai acabar nunca; infelizmente, é do ser humano, mas essa operação, de combate à corrupção, se transformou, como bem a definiu Safatle, de uma operação jurídica em um modo de intervenção política. O governo que a operação ajudou a assumir, PMDB-PSDB-Centrão, é o mais corrupto que já tivemos. Para quem não sabe, o Brasil caiu 17 posições no internacional Índice de Percepção da Corrupção (IPC), o que mostra que a Lava Jato não atingiu, em termos jurídicos de combate à corrupção, seus objetivos. Será que o fato de ter se transformado em um instrumento político de luta de classe teria algo a ver com isso? Deixo a resposta ao critério dos leitores.

A maior parte das elites políticas e econômicas, que deram o golpe em 2016, achando que iriam fazer um governo de transição e que iriam ganhar as eleições agora, em 2018, com facilidade, se deram mal, porque: 1 – as pautas-bomba que ajudaram a aniquilar a economia e a criar as condições de revolta da população contra o governo Dilma, que já não era bom, especialmente o segundo governo, deprimiram tanto a economia brasileira, que o resultado foi ainda mais recessão, que, hoje, cai no colo do ilegítimo Temer e de seus apoiadores, como o PSDB e o Centrão, e não na conta do PT, que, sim, sofreu o golpe, mas tem parte da culpa pelo que vivemos hoje; 2 – ao destampar a “caixa de Pandora” de parte da política nacional, libertou o ovo da serpente do fascismo, que hoje assusta até mesmo os golpistas e que, eleitoralmente, está à sua frente, deixando-nos apenas a esperança de que o pior não aconteça e os obtusos reacionários desmintam Nelson Rodrigues quando dizia que os idiotas vão dominar o mundo, não pela qualidade, mas pela quantidade; e 3 – goste-se ou não dele, Lula deu um nó político nos golpistas e, qual massa de bolo, quanto mais apanha, mais cresce; e seja lá qual for o resultado das eleições, ele é o grande vencedor (ele, não necessariamente o Brasil; não obstante, ele deveria estar livre porque o processo que o condenou é, flagrantemente, injusto, parcial e errado – não sei dizer se sua eventual eleição seria boa para o Brasil, mas sua liberdade e a possibilidade de ele concorrer, sim).

Até quando a população vai se deixar enganar pelo que a professora Adela Cortina, filósofa espanhola da Universidade de Valência, chamou de “Aporofobia”, palavra que vem do grego antigo “apóros”, hoje empregada em sentido racista e xenófobo, na Europa, contra os imigrantes das mazelas mundiais, e que designava as pessoas que as elites gregas consideravam pobres e excluíveis da “democracia”? A partir da bela frase do britânico Kerry Brown, que abre este artigo, não vamos confundir pasmaceira com prostração. Ajamos, pois, desde o leito do rio até a superfície, para não deixarmos que os que ganham com nosso desânimo e inação continuem a achar que poderão continuar a ter tudo, relegando-nos a aceitar as migalhas de sempre: VIPs somos todos nós!

* Geógrafo e pós-doutor em Geografia Humana (cfgalvao@terra.com.br)



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