Jornal do Brasil

País - Artigo

Coluna da Segunda - Quem vai engolir?

Jornal do Brasil OCTÁVIO COSTA, octavio.costa@jb.com.br

Está aberta a temporada de apostas sobre quem será o adversário de Jair Bolsonaro no segundo turno. Pelas pesquisas mais recentes, da XP Investimento e do Datafolha (a do Vox Populi perdeu credibilidade), o vento sopra a favor do ex-prefeito Fernando Haddad, o indicado de Lula. Além de saltar de 5% para 13% no inicio da campanha, Haddad começou a abocanhar o balaio de votos do ex-presidente no Nordeste. Na consulta do Datafolha, suas intenções de voto naquela região subiram de 5% para 20%, depois que ele foi confirmado como cabeça da chapa do PT. O movimento é forte e consistente e muita gente que traz a política nos poros já afirma que o segundo turno se dará entre Bolsonaro e Haddad, com o deputado do PSL ocupando o lugar que coube aos tucanos nos últimos pleitos. Mesmo com Lula preso, o PT reassumiu seu lugar e o país reviverá a polarização entre direita e esquerda, esta representada pelo ex-prefeito de São Paulo.

Mas a política costuma reservar surpresas. Nem sempre se confirma o que parece garantido. Apesar do desempenho de Haddad, ainda há muita gente apostando que o ex-ministro Ciro Gomes passará para o segundo turno. Não num improvável mano a mano com o petista, pois, desde o retorno das eleições diretas para presidente, não houve segundo turno com dois representantes da esquerda. Mas, sim, com Ciro abrindo distância para Haddad e se habilitando para a disputa do segundo turno contra Bolsonaro. Os aliados do candidato do PDT acreditam, piamente, que ele conquistará fatia dos votos de Lula no Nordeste. Acham que vai contar a favor o fato de ele ter sido prefeito de Fortaleza e governador do Ceará. Otimistas, preveem que os eleitores nordestinos tendem a escolher um nome da região. Mesmo com a indicação de Lula, Haddad seria identificado como político do Sudeste, que tem a seu lado a gaúcha Manuela D’Ávila. Ciro, ao contrário, é homem que conhece o drama e a força do sertanejo.

Contas estão sendo feitas na ponta do lápis. Por enquanto, no Datafolha, Ciro e Haddad aparecem empatados com 13% das intenções de votos. E a pesquisa do Ibope que será divulgada amanhã à noite não deve trazer números muito diferentes, mesmo porque o tradicional instituto costuma ajustar seus resultado aos poucos. Se na última consulta mostrou Haddad com 8%, dificilmente vai trazer o petista com muito mais que o Datafolha. Portanto, é muito grande a chance de o país voltar a assistir um embate entre PT e PDT, como aconteceu na eleição de 1989, com a disputa acirrada entre Lula e Brizola para chegar ao segundo turno contra Fernando Collor de Mello. Durante a maior parte da campanha, Brizola manteve um confortável segundo lugar e, com isso, não teve dificuldade para buscar financiamento. Mas à medida que o pleito se aproximou, Lula foi avançando graças à empolgação da militância petista. O clima entre os dois partidos esquentou, principalmente no Rio de Janeiro, principal reduto de Brizola. Aqui, a mágoa com o PT vinha da eleição de 1986, quando o então petista Fernando Gabeira não abriu mão de concorrer contra o grande antropólogo Darcy Ribeiro, ex-ministro da Casa Civil de João Goulart. Darcy, como se sabe, foi derrotado por Moreira Franco, do PMDB.

Por essas e outras, quando Lula passou para o segundo turno em 1989, com uma diferença de pouco mais de 400 mil votos para Leonel Brizola, muita gente do PDT mostrou-se disposta a não mover uma palha pela eleição do metalúrgico. Mas Brizola não era um político qualquer. Sabia o que Collor significava e, no calor da derrota, convocou dirigentes e militantes para um encontro no Riocentro. Lá estavam milhares de pedetistas, muitos com o lenço vermelho dos maragatos no pescoço. Todos furiosos com Lula e o PT. Aos poucos, Brizola controlou os ânimos da massa até passar a palavra a Luiz Carlos Prestes, presidente de honra do PDT. Prestes explicou que tinha diferenças em relação a Lula, mas que era preciso derrotar a direita. Foi aí que Brizola agiu rápido. Aproveitou o recado de Prestes, fez um discurso no mesmo tom e concluiu com a imagem que entrou para a história: “Temos que engolir o sapo barbudo”.

O destino dá voltas e novamente pôs o PDT no caminho do PT numa eleição para a Presidência. Resta saber quem terá que engolir quem no segundo turno. Será Ciro ou Haddad?



Recomendadas para você