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Coluna da Segunda - Em nome de Deus

Jornal do Brasil OCTÁVIO COSTA, octavio.costa@jb.com.br

Em depoimento à Polícia Militar de Minas Gerais, Adélio Bispo de Oliveira, o autor do atentado contra o deputado Jair Bolsonaro, confessou o crime e disse que agiu “a mando de Deus”. Ele também afirmou à Polícia Federal, segundo relato do deputado Fernando Francischini, líder do PSL na Câmara, que a motivação do crime foi o fato de Bolsonaro defender ideologia de extrema direita e o extermínio de homossexuais, negros pobres e índios. E explicou que “discorda radicalmente” dessas posições. Como se vê, Bispo de Oliveira não é tão atarantado como dizem. Mas mesmo assim seus advogados, no esforço de abrandar a pena, vão alegar insanidade mental do cliente. Se a Justiça acatar o pedido, o esfaqueador do candidato do PSL, trancafiado no presídio federal de Campo Grande, será submetido a exames psiquiátricos. Caso se confirme a insanidade, poderá ser decretada sua inimputabilidade, levando, talvez, à absolvição.

O ato de Adélio foi condenável. Não resta a menor dúvida. Quem acredita na democracia, no estado de Direito, na liberdade de opinião e no livre debate não tem outra conclusão sobre o atentado a Bolsonaro. Mas muito diferente é se concluir, desde já e de forma açodada, que o homem que desferiu a facada no deputado é doido de pedra. Vejamos, por exemplo, um ponto-chave de seu depoimento. Diz ele que, por trás da punhalada, estava a vontade de Deus. Ora, na atual campanha eleitoral, são feitas com frequência menções aos desígnios divinos. O cabo Daciolo não só vai aos debates com a Bíblia na mão, como cita trechos do Velho Testamento com sua voz de trovão. Garante que fala em nome de Deus e de Jesus Cristo. É caso também interná-lo?

Ao ser entrevistado no Jornal Nacional, o próprio Jair Bolsonaro apareceu com uma cola na mão. Repetiu o que havia feito no debate da Rede TV, mas as três palavras que anotou na Globo eram: “Deus, Família e Brasil”. Ao contrário da primeira cola, a segunda pareceu proposital. Quis Jair Bolsonaro que os telespectadores tomassem conhecimento de suas convicções. Cá entre nós, o tripé Deus, família e Brasil é muito parecido com o lema da antiga TFP — Tradição, Família e Propriedade, movimento de extrema-direita, vinculado à corrente religiosa Opus Dei. Além disso, Bolsonaro também costuma dizer, em seus comícios, que sua missão é afastar o perigo comunista, tarefa que lhe foi atribuída por Deus. Em resumo, tanto Adélio Bispo de Oliveira quanto Jair Bolsonaro citam o nome de Deus em vão. Como contribuição simbólica ao misticismo que envolve o atentado, quem está pagando um dos advogados do agressor é um representante das Testemunhas de Jeová.

Outro ponto a ressaltar no atentado de Juiz de Fora é o do radicalismo. Adélio recorreu à facada por discordar “radicalmente” das posições de Bolsonaro. Mas, se alguém discorda de um político, basta vaiá-lo e pedir que votem contra ele. Assim é na democracia. Obviamente, Adélio perdeu a cabeça e foi muito além disso. Quase matou Bolsonaro e vai pagar pelo crime que cometeu. Mas aqui também, por mais que se condene a agressão, não se pode esconder o sol com a peneira. “Nunca fiz mal a ninguém”, reagiu Bolsonaro, ainda no leito da Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora. É verdade. Não constam da biografia do deputado agressões físicas. Não faltam, porém, em seu currículo destemperos e agressões verbais.

Seguem-se exemplos já famosos: “Deveriam ter sido fuzilados uns 30 mil corruptos, a começar pelo presidente Fernando Henrique Cardoso”; “Eu sou favorável à tortura”; “O erro da ditadura foi torturar e não matar”; “Não vou combater nem discriminar, mas, se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater”; “Eu fui num quilombola em Eldorado Paulista, o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas, não fazem nada, nem para procriador serve mais”; “Eu não sou estuprador, mas, se fosse, não iria estuprar porque ela não merece”; “Foram quatro homens, a quinta, eu dei uma fraquejada, e veio mulher”. E por aí vai. Na campanha, ele diz que meninos têm de aprender a atirar desde cedo, ou, então, os pais correm o risco de vê-los brincando de boneca.

Bolsonaro agride com palavras e também com imagens. Assim que se sentou no Albert Einstein, repetiu sua marca registrada, com as mãos imitando uma arma. O candidato do PSL continua o radical de sempre. Que Deus o proteja!



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