MAURO SANTAYANA

Do Brasil e de seus arredores Ao renunciar, Roriz deixou a Argello a cadeira, que ele tem ocupado com movimentação invulgar O mundo jamais será o mesmo, depois das revelações feitas pelo criador do WikiLeakss O MÍNIMO QUE se pode falar do senador Gim Argello, suplente de Joaquim Roriz, como representante do Distrito Federal, é que se trata de um falastrão. Há alguns meses – e há testemunhas – sua excelência chegou ao plenário da Câmara Alta e, com euforia e soberba, anunciou a dois ou três colegas que, finalmente, chegara ao primeiro bilhão de reais. Um grande êxito para alguém que tem, como atividade empresarial, a exploração de agências de correios, sob concessão. É importante lembrar que a Constituição de 1946 vedava, expressamente, que os parlamentares tivessem qualquer tipo de negócios com o poder público. Mas essa providência republicana foi sendo abandonada e é hoje esquecida.

Tendo integrado o grupo de Joaquim Roriz, foi por ele escolhido seu suplente, quando se candidatou ao Senado.

Ao renunciar, Roriz deixou-lhe a cadeira, que ele tem ocupado com movimentação invulgar.

Relator do orçamento – não se sabe por que arranjo providencial das circunstâncias – Argello destinou algumas emendas de sua autoria a beneficiar entidades culturais de fachada, uma delas dirigida por jovem atilado, de 24 anos, mas sob o nome de modesto jardineiro, e com endereço, como é do costume, em rua perdida na periferia do Distrito Federal. Denunciado, Argello resolveu, primeiro, retirar as emendas suspeitas e destinar a verba à estrutura de turismo do governo local. Na tarde de ontem, foi além, e renunciou ao cargo de relator do orçamento.

Essas providências, tardias do ponto de vista moral, não desfazem o juízo dos observadores sobre a personalidade singular do senador. Ele alardeia, com imprudência e impudência, relações de amizade com a presidente eleita, Dilma Rousseff.

Argello tem anunciado a seus interlocutores que terá influência poderosa no pró ximo governo. Os que conhecem mais de perto a presidente eleita apostam que ele será reduzido ao seu verdadeiro tamanho e valor.

Mor te ao mensageiro O governo dos Estados Unidos, na defesa de seu sistema de domínio, decidiu fazer de Julian Assange, o criador e operador do WikiLeaks, seu inimigo público número 1.

Mediante todos os instrumentos de pressão, policiais, diplomáticos, econômicos e militares, fechou o cerco ao jornalista – e sua qualificação como jornalista é necessária, honrada e perfeita – que foi detido ontem em Londres, sob a acusação de estupro presumidamente cometido na Suécia. Assange teme ser extraditado para os Estados Unidos, onde tudo lhe pode ocorrer. Mas a nova Caixa de Pandora foi aberta. Mesmo que – e isso parece improvável – os norte-americanos conseguissem apagar do éter todos os sinais eletrônicos referentes aos dois conjuntos de documentos vazados pelo soldado Bradley Manning e entregues a Assange, o rei está totalmente desnudo. O mundo jamais será o mesmo, depois dessas revelações, algumas gravíssimas – como as que consideram instalações e recursos minerais situados no Brasil, como de interesse estratégico dos Estados Unidos – e outras simplesmente ridículas, como as que tratam das aventuras sexuais de Berlusconi e das intrigas de Jobim contra o Itamaraty.

As forças americanas no Oriente Médio, de acordo com os documentos vazados por Manning, atuam com a crueldade dos aterrorizados. A diplomacia america na revela o mesmo temor diante do mundo, mas não amedronta. Ao contrário, faz rir. É uma derrota moral irre m e d i á ve l .

O mundo está sob a hipótese de se tornar um espaço sem segredos. E um espaço sem segredos é, felizmente, um espaço sem dono.