Sobre peixes e tubarões

José Cruz/Agência Senado

SARNEY

– Histórico de poder

Sarney driblou o fogo amigo e negociou com o Planalto sua permanência no cargo em 2011–2012

N

a política não existe bobo.Os quesão, fingem bem. Na ar- te da política, há um grande teatroenvolvente e enobrecedor, em que no palco montado pelos mandatários desfilam personagensdistin- tos,bons homensetambém, inevitavelmente, umacorja que faz o país lembrar o quan- to énecessária umareforma política–e, porquenão,de caráter–seja emBrasília,a meca do poder brasileiro, seja numacidadezinha bemafas- tadada capital. Nesseteatro, existem peixes e tubarões num mar peculiar criado por eles, os mandatários. Há momentos em quetrocam depapéis,e ospe- rigosos tubarões se passam por inofensivos lambaris para dis- trair as lanternas da mídia e fa- zer suas pescarias.Não esca- pam, porém,à verdade.Todos trabalham pelo poder. Por eles, e pelos partidos. A síntese acima resume o PMDB. Como todo grande, enorme partido, nele há diver- gências e convergências. Existe a ala do bom-senso e a ala do fisiologismo –embora essas duas turmas convirjam quando se tratade poder. OPoder! O histórico da legendanos últi- mos 20anos étão intensono noticiário político que PMDB e Poder quase se tornam uma só palavra. A diferença é que a se- gunda está no dicionário; a pri- meira busca sua identidade. Justamente essa identidade é a preocupação atual do partido. Apontode oagoravice-presi- denteeleito, tambémcoman- dante da legenda, deputado Mi- chel Temer, há poucos meses ter declarado a este repórter que o partido enfimtrabalhava para não transmitir à população a imagem de uma agremiação fi-

siológica(leia-se, atrássóde cargos, ministérios, estatais, au- tarquias, indicações para agên- cias reguladoras e outras mais). Nesse contexto,o PMDBluta contra elemesmo. Contraseu histórico. Não há um ano sequer, nas duas últimasdécadas, em que o partido tenha ficado lon- gedo podernacional emBra- sília. Rachado ou não, o PMDB sempre teve um pé no Palácio do Planalto. Discretíssimo com Fernando Collor, mais liberado comItamar Franco,evidente com Fernando Henrique e es- cancarado com Luiz Inácio, tan- to na primeira gestão, só em par- te, quanto na segunda, enfim to- do ele. O PMDB. Pode-se dizer que o PMDB é um grande cardume, e seus tubarões, sempre à caça de iscas fáceis. Por- que eles são maioria no Congres- so, este mar (às vezes de lama), e sabem se impor em grupo.

Na arte de vislumbrar mares revoltos, Sarney e o PMDB nadam sempre em maré mansa

E, dentrodeste PMDB,se existe um nome que sabe dei- xar-se levar pela correnteza do poder, éJosé Sarney.Com ex- ceção de um breve período, os doisanos degovernoCollor (1990-92), Sarney entra e sai do gabinete presidencial do Paláciodo Planaltodesde 1986, em ritual no qual as por- tas se abrem sozinhas para ele, independentemente do popu- lar inquilino dooutro lado da mesa. Seria exagero dizer que Sarney é o PMDB,com sua fi- siologia (hoje ele controla com apadrinhados pelomenos o Ministério de Minas e Energia e emplaca diretores em agên- cias). O PMDB, desde que cria- do, foi um conglomerado de in- teresses – emministérios, em emendas, em verbas.Mas se- ria injusto tambémapontar o PMDB como o único partido mestre nesse conceito, o que não tira da legenda um título de doutoradonesse esque- ma. Emuitos militantes,de- putados ou senadores, devem esse controle atual de poder a Sarneye seutrânsito; aSar- ney e seu histórico de visitas a presidentes. Muito se tem falado que José Sarney, hoje presidente do Con- gresso, vai desistir da reeleição. Balela. Ele vai continuar no car- go, já negocia sua permanência, no biênio 2011-12. Enquanto is- so, os peixes,aqueles que se acham tubarões e apostam na sua queda, não percebem que já foram fisgados. Esquecem-se de que Sarney, além de tubarão, também sabe pescar.No aquá- rio do Palácio.