Mineiro, tricolor e idealista

Nascido na histórica Diamantina, Minas Gerais, há 95 anos, Emílio Ibrahim foi exemplo de amigo aplicado, apaixonado por estudos e pessoas. Pai do ator Marcelo Ibrahim, que morreu em 1986, e do advogado Paulo Emílio Ibrahim, o querido engenheiro tinha muitas saudades de sua esposa, a professora Gilza de Macedo Soares, de quem ficou viúvo há alguns anos.

Antes de ingressar na vida pública, na antiga prefeitura do Distrito Federal, em 1949, como auxiliar de engenheiro do Departamento de Estradas de Rodagem, Emílio Ibrahim foi jogador de futebol. Veio para o Rio de Janeiro contratado pelo Fluminense, em 1948, na renovação do seu quadro profissional, implantada pelo técnico Ondino Vieira e pelos diretores Carlos Nascimento e Dilson Guedes.

Além da política, minha amizade com Emílio Ibrahim tinha a ver com o amor pelo Fluminense. Em minhas conversas com o amigo e conterrâneo (também sou tricolor), ele lembrava que Castilho, Píndaro, Hélvio, Pinheiro, Mirim e Didi foram seus companheiros naquele projeto-renovação de 1948. Foram campeões do Torneio Municipal.

O grande sonho de Emílio Ibrahim foi o de escrever um livro sobre a sua vida.
Ele morreu de parada cardíaca, no dia 9 de abril, após um quadro de pneumonia. Estava internado no Hospital Samaritano e já tinha tomado as duas doses da vacina contra o Covid-19.

No jogo de domingo, contra o Nova Iguaçu, no Maracanã, o Fluminense fez um minuto de silêncio, em homenagem ao atleta Emílio Ibrahim. Torcedor do “time de guerreiros”, o ex-meia-direita deixou a cidade mineira de Mariana para vestir as cores verde, branco e grená. Entre 1948 e 1949, marcou nove gols em 26 partidas. Em sua passagem pelas Laranjeiras, Emílio chegou a se dividir entre o esporte e a engenharia.

Porém, em 1949, aos 23 anos, decidiu abandonar os gramados. Formou-se engenheiro civil em 1952 pela Escola Nacional de Engenharia da Universidade do Brasil. E ao longo de sua vida pública, iniciada ainda na época de estudante, contribuiu para a realização de importantes obras no Rio de Janeiro.
Foi presidente da ADEG (Administração dos Estádios da Guanabara), no governo de Carlos Lacerda. Dirigiu as obras de acabamento do Maracanã e as reforma do Teatro Municipal e da Lapa.

Eu conheci Emílio Ibrahim, em 1962, quando fui eleito deputado estadual pela extinta UDN.
Embora tenha feito muito sucesso na vida pública, meu amigo dizia que sempre sentia muitas saudades da carreira de jogador de futebol.

Após o diploma de Engenharia Civil, em 1952, chefiou o departamento de engenharia do montepio dos empregados municipais (atual IPERJ - Instituto de Previdência do Estado do Rio de Janeiro). E, presidiu a ADEG. Carlos Lacerda gostava muito dele.

Também foi presidente do IAPC (Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Comerciários), até a sua extinção, no governo do marechal Castelo Branco.

Secretário de Obras e Serviços Públicos no governo de Chagas Freitas, foi o responsável pela inauguração da subadutora da Barra da Tijuca e do sistema de gás canalizado.

Profissional respeitado por todos e sem perfil partidário, foi diretor da Centrais Elétricas de Furnas no governo do general Figueiredo.

Udenista, ligado a Carlos Lacerda, com passagem pelo MDB e PMDB de Chagas Freitas, Emílio Ibrahim teve excelentes laços de amizade com a turma do PDS, ligada ao ex-presidente João Figueiredo (o PDS era o partido oficial do último presidente do regime militar).

Em 1982, Emílio Ibrahim lançou-se pré-candidato a governador pelo PDS do Rio de Janeiro. Os outros candidatos eram Leonel Brizola, do PDT, Sandra Cavalcanti, pelo PTB, e Miro Teixeira, pelo PMDB, e Lysâneas Maciel, pelo PT.

A campanha de Emílio Ibrahim não decolou pelo PDS. Presidente do partido que apoiava o regime militar, o ex-senador Amaral Peixoto substituiu Emílio Ibrahim por Wellington Moreira Franco, que era casado com Celina Vargas (filha de Alzira Vargas e de Amaral Peixoto).

No início da campanha (em março de 1982), Leonel Brizola, Emílio Ibrahim e Lysâneas Maciel apareciam com baixíssimas intenções de voto. Os líderes nas pesquisas eram Sandra Cavalcanti e Miro Teixeira.

Nos últimos dois meses antes das eleições, Moreira Franco (que já havia substituído Emílio Ibrahim), auxiliado pela máquina partidária organizada por Amaral Peixoto, e Leonel Brizola (que se saía muito bem nos debates populares e ganhou as ruas) passaram a disputar o primeiro lugar.

Deputado federal mais votado pelo PTB de Getúlio e Jango, no antigo Estado da Guanabara, Leonel Brizola venceu as eleições para governador do Rio de Janeiro, em 1982, com 34,17% dos votos contra 30,60%para o segundo colocado, Moreira Franco.

Emílio Ibrahim, quando saiu do governo Figueiredo, foi convidado pelo ex-presidente José Sarney (que assumiu a presidência da República quando Tancredo Neves adoeceu e foi internado no Hospital de Base, em Brasília) para presidir a CBTU (Companhia Brasileira de Trens Urbanos). Os dois eram muito amigos.

Morador do Leblon, Emílio Ibrahim caminhava sempre pela praia e ali encontrava muitos colegas que, como ele, participaram da história brasileira.

Estava lúcido, antes da pneumonia, e continuava a sonhar com um Brasil melhor. Acreditava que poderia, depois de tomar as duas doses da vacina contra o Covid-19, ter tempo para organizar e editar suas memórias.

* Empresário e ex-deputado .

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