Donald Trump faturou mais de US$ 1 bilhão no ano passado em troca de sua presidência
Segundo o "NYT", as finanças do presidente, "que eram um tanto misteriosas, evidenciam um conflito em seus negócios com criptomoedas: Trump é um dos principais operadores do setor de criptomoedas e seu maior legislador".
A manchete é do jornal britânico e conservador “Financial Times”. Os grandes jornais americanos demoraram a dar destaque ao que a imprensa europeia considera um escândalo: a declaração dos rendimentos financeiros do presidente dos Estados Unidos. Só às 11 horas (horário de Brasília), mais de meia hora após os sites dos jornais europeus tratarem o caso, o “New York Times” saiu com a manchete:
“Trump arrecadou pelo menos US$ 2 bilhões após retornar à Casa Branca”, com o subtítulo: “A divulgação obrigatória das informações financeiras referentes a 2025 mostra que os bens da família Trump, em especial os negócios de criptomoedas do presidente, eram surpreendentemente lucrativos.
Os detalhes do 'NYT'
Segundo o jornal “The New York Times”, o presidente Trump obteve “uma quantia impressionante em seu primeiro ano de volta à Casa Branca, incluindo cerca de US$ 1,4 bilhão dos negócios de criptomoedas de sua família”, conforme revela um novo documento.
No total, o presidente arrecadou pelo menos US$ 2,2 bilhões, um valor que inclui outras partes de seu vasto patrimônio, como seus ativos imobiliários. Isso se compara a um mínimo de US$ 622 milhões que suas empresas arrecadaram em todo o ano de 2024, antes de ele retornar à presidência.
Uma de suas maiores aquisições em 2025 ocorreu quando uma empresa de investimentos ligada aos Emirados Árabes Unidos comprou quase metade da principal empresa de criptomoedas da família Trump, a World Liberty Financial, uma transação que confundiu a linha divisória entre política externa e iniciativa privada.
O Sr. Trump também arrecadou centenas de milhões de dólares com a venda de sua criptomoeda fictícia $TRUMP e com a venda dos tokens digitais da World Liberty.
Os resultados, detalhados no relatório financeiro obrigatório de Trump para 2025 e divulgado nessa terça-feira (30), revelaram os bastidores das operações comerciais do presidente. Seus empreendimentos com criptomoedas, segundo o relatório, estão entre os mais lucrativos, uma reviravolta notável para um homem que antes criticava as criptomoedas como um refúgio para traficantes de drogas e golpistas.
Conflito de interesses
Ainda segundo o “NYT”, as finanças do presidente, “que eram um tanto misteriosas, evidenciam um conflito em seus negócios com criptomoedas: Trump é um dos principais operadores do setor de criptomoedas e seu maior legislador”.
Para o jornal, essa não é a única questão decorrente da presidência de um empresário. “Os negócios da família do presidente, a Organização Trump, também capitalizaram sobre a popularidade do Sr. Trump em certas partes do mundo, licenciando o nome Trump para propriedades em países cruciais para os interesses da política externa dos EUA, incluindo Arábia Saudita e Catar”.
Casa Branca ainda não respondeu
A Casa Branca não respondeu imediatamente a um pedido de comentário, embora no passado Trump tenha observado que está isento das leis federais de conflito de interesses. Anna Kelly, porta-voz da Casa Branca, disse em um comunicado recente que o Sr. Trump "age apenas no melhor interesse do público americano", e que "não há conflitos de interesse."
Embora o relatório divulgado nessa terça-feira tenha apresentado números de receita para os empreendimentos de cripto e imóveis de Trump, ele não revelou se todos os negócios tiveram lucro ou prejuízo, o que é consistente com seus documentos anteriores.
O relatório também oferece pouca clareza sobre o patrimônio líquido do presidente, grande parte do qual está atrelado ao valor estimado dos imóveis e à flutuação do valor em papel dos ativos criptográficos e de sua carteira de ações. Para seus maiores ativos, incluindo criptomoedas e imóveis, Trump relatou uma avaliação mínima de US$ 50 milhões, sem limite máximo.
De ingressos à Copa a bíblias
Segundo o “Financial Times”, os ganhos vieram de ingressos para a Copa do Mundo e vendas de criptomoedas. O presidente dos Estados Unidos também ganhou centenas de milhares de dólares com o licenciamento de Bíblias, relógios e perfumes.
Trump declarou mais de 1,4 bilhão de dólares (R$ 7,2 bilhões) em renda proveniente dos empreendimentos de criptomoedas de sua família no último ano, ou seja, desde que ele assumiu o governo americano.
A agências alemã de notícias Deutsche Welle detalha que “os dados revelam como agora ele obtém a maior parte de seus ganhos através de ativos digitais que foram beneficiados por políticas implementadas por sua própria administração, segundo uma análise de suas mais recentes declarações financeiras divulgadas nessa terça-feira”.
Os números refletem o peso crescente dos investimentos em criptomoedas dentro do patrimônio do presidente, em contraste com sua histórica dependência do setor imobiliário e das receitas provenientes de licenciamento de marcas e empreendimentos comerciais.
As divulgações reacenderam o debate sobre possíveis conflitos de interesse entre as atividades privadas do presidente e suas funções públicas, em um momento de expansão do mercado de ativos digitais nos Estados Unidos.
A renda do presidente com criptomoedas está sob escrutínio, em parte porque sua administração tem promovido agressivamente a negociação de moedas digitais. Trump afirmou que deseja transformar os Estados Unidos em uma "superpotência do Bitcoin", e vem reduzindo regulações sobre o setor desde que assumiu o cargo.
Trump também concedeu posteriormente um perdão presidencial a Changpeng Zhao, fundador da corretora de criptomoedas Binance, que havia sido condenado por violações das leis de combate à lavagem de dinheiro. Após a reeleição de Trump, a Binance passou a manter relações comerciais próximas com a World Liberty Financial, uma empresa de criptomoedas fundada por Trump e seus filhos.
Os documentos, que correspondem à sua declaração anual de bens e rendimentos de 2025 junto ao Escritório de Ética Governamental dos Estados Unidos, detalham que as empresas de Trump receberam quase 800 milhões de dólares (R$ 4 bilhões) da World Liberty Financial. Esse total inclui mais de 520 milhões de dólares (R$ 2,7 bilhões) provenientes da venda de tokens de criptomoedas e mais de 250 milhões dólares (R$ 1,3 bilhão) obtidos com a venda de participações no negócio World Liberty, sendo que familiares também têm direito a uma parcela dessa receita.
Trump também declarou outros 635 milhões de dólares (R$ 3,3 bilhões) provenientes da venda de suas memecoins Trump.
Salto nos rendimentos
A divulgação destaca como o mercado de criptomoedas transformou as fontes de renda do presidente americano. Em sua declaração apresentada em junho do ano anterior, Trump informou ganhos de 57,35 milhões de dólares (R$ 296 milhões) com a venda de tokens da World Liberty. Na declaração deste ano, esse valor saltou para mais de 500 milhões de dólares (R$ 2,6 bilhões).
Recentemente, a agência de notícias Reuters estimou que a família Trump obteve pelo menos 2,3 bilhões de dólares (R$ 11,9 bilhões) com projetos relacionados a criptomoedas desde o retorno de Trump à Casa Branca em 2025.
Ao assumir o cargo, Trump passou a implementar políticas e iniciativas consideradas favoráveis ao setor, desde a criação de regras federais para stablecoins até a redução da fiscalização da indústria pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos e pela Comissão de Valores Mobiliários (SEC).
O presidente também declarou mais de 80 milhões de dólares (R$ 413 milhões) em receitas provenientes de acordos com diversas empresas de mídia, além de milhões de dólares recebidos por sua empresa pelo licenciamento de seu nome para incorporadoras imobiliárias no exterior.
"Nem o presidente nem sua família jamais se envolveram – nem jamais se envolverão – em conflitos de interesse. O presidente Trump transformou com orgulho os Estados Unidos na capital mundial das criptomoedas por meio de ações executivas", afirmou a porta-voz da Casa Branca, Anna Kelly, em comunicado.
"Todas as ações do presidente Trump e de sua administração são tomadas no melhor interesse do povo americano – e quaisquer supostos 'repórteres' que afirmem o contrário estão apenas reciclando a mesma narrativa falsa e desgastada que os democratas e a mídia tradicional vêm promovendo há uma década", acrescentou.
Embora a Casa Branca tenha declarado anteriormente que os interesses empresariais do presidente são atualmente administrados por seus filhos, Trump continua sendo o beneficiário dos ativos mantidos no fundo fiduciário que, em última instância, recebe essa renda.