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Governo e oposição reivindicam vitória nas eleições na Venezuela, resultados oficiais questionados

NOTÍCIA ATUALIZADA: Governo brasileiro divulga nota querendo ver os boletins de urnas

Por JB INTERNACIONAL com Reuters
redacao@jb.com.br

Publicado em 29/07/2024 às 06:06

Alterado em 29/07/2024 às 13:26

Maduro festeja e fala em 'união nacional' Foto: Reuters/Fausto Torrealba

O presidente, Nicolás Maduro, e seu rival oposicionista, Edmundo González, reivindicam a vitória na eleição presidencial da Venezuela, nesta segunda-feira (29), enquanto Washington e outros governos estrangeiros lançam dúvidas sobre os resultados oficiais que deram a vitória ao atual presidente.

A autoridade eleitoral nacional disse pouco depois da meia-noite que Maduro havia conquistado um terceiro mandato com 51% dos votos - um resultado que estenderia um quarto de século de governo socialista.

Mas pesquisas de boca de urna independentes apontaram para uma grande vitória da oposição após demonstrações entusiásticas de apoio a González e à líder da oposição Maria Corina Machado na campanha.
Gonzalez ganhou 70%, disse Machado, que foi impedida de ocupar cargos públicos em uma decisão que ela diz ser injusta.

Não ficou imediatamente claro qual seria o próximo passo da oposição. Gonzalez disse que não estava pedindo aos apoiadores que saíssem às ruas ou cometessem atos de violência.

Mas incidentes isolados ocorreram em todo o país antes do anúncio dos resultados, incluindo a morte de um homem no estado de Táchira e brigas em locais de votação em Caracas e outros lugares. A polícia dispersou um protesto em Catia, tradicionalmente um bastião do partido governista no oeste de Caracas.

O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, disse que Washington tinha sérias preocupações de que os resultados anunciados pela autoridade eleitoral não refletissem os votos do povo. A autoridade deve ser um órgão independente, mas a oposição diz que atua como um braço do governo de Maduro.

Caracas e Washington têm uma relação antagônica que remonta à era do populista de esquerda Hugo Chávez. Maduro assumiu o cargo pela primeira vez após a morte de Chávez em 2013 e sua reeleição em 2018 é considerada fraudulenta pelos Estados Unidos e outros, que o chamam de ditador.

Maduro presidiu um colapso econômico, a migração de cerca de um terço da população e uma forte deterioração nas relações diplomáticas, coroada por sanções impostas pelos Estados Unidos, União Europeia e outros que prejudicaram uma indústria petrolífera já em dificuldades.

O presidente argentino, Javier Milei, chamou o resultado oficial de fraude, enquanto a Costa Rica e o Peru o rejeitaram e o Chile disse que não aceitaria nenhum resultado que não fosse verificável.

O ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Albares, disse que os detalhes de todas as seções eleitorais devem ser apresentados para garantir resultados totalmente verificáveis. "Pedimos que a calma e a civilidade com que o dia da eleição ocorreu sejam mantidas", disse ele.

Rússia, Cuba, Honduras e Bolívia comemoraram a vitória de Maduro.

O presidente russo, Vladimir Putin, parabenizou Maduro e saudou a parceria estratégica dos dois países, dizendo que eles continuariam seu trabalho conjunto em questões bilaterais e internacionais.

"Lembre-se de que você é sempre um convidado bem-vindo em solo russo", disse Putin.

CORTANDO O BOLO
Maduro reiterou sua afirmação de campanha de que o sistema eleitoral da Venezuela é transparente.
Ele assinará um decreto nesta segunda-feira para realizar um "grande diálogo nacional", disse ele enquanto comemorava com apoiadores antes de cortar um bolo de aniversário para seu falecido mentor Chávez, que completaria 70 anos no domingo.

A Edison Research publicou uma pesquisa de boca de urna mostrando que González, um ex-diplomata de 74 anos conhecido por seu comportamento calmo, obteve 65% dos votos, enquanto Maduro obteve 31%.

A empresa local Meganalisis previu 65% dos votos para González e pouco menos de 14% para Maduro.

A oposição e os observadores eleitorais levantaram questões antes da votação sobre se seria justo, dizendo que as decisões das autoridades eleitorais e as prisões de funcionários da oposição tinham o objetivo de criar obstáculos.

Machado pediu aos militares do país que mantenham os resultados da votação, dizendo que os eleitores deixaram claro que não querem Maduro.

Os militares da Venezuela sempre apoiaram Maduro e não houve sinais públicos de que os líderes das Forças Armadas estejam rompendo com o governo.

 

Atualização da notícia 11h44

Brasil saúda resultado e pede divulgação de boletins

O Ministério das Relações Exteriores (MRE) informou, por meio de nota, que aguarda a publicação pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE) da Venezuela dos "dados desagregados por mesa de votação, passo indispensável para a transparência, credibilidade e legitimidade do resultado do pleito".

O comunicado diz que o Brasil "reafirma ainda o princípio fundamental da soberania popular, a ser observadora por meio da verificação imparcial dos resultados". O Itamaraty também cumprimentou a Venezuela pelo fato das eleições terem sido realizadas em clima pacífico.

"O governo brasileiro saúda o caráter pacífico da jornada eleitoral de ontem [domingo] na Venezuela e acompanha com atenção o processo de apuração", diz a nota do MRE.

O governo brasileiro enviou como representante para acompanhar a votação o embaixador Celso Amorim, assessor especial de Relações Internacionais da Presidência da República.

Há a expectativa de que o Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela publique todas as atas com os resultados eleitorais por urna. Com isso, é possível verificar se as atas em mãos do CNE são as mesmas impressas na hora da votação e que foram distribuídas aos fiscais da oposição ou aos observadores nacionais e internacionais.

Apesar do CNE ter anunciado a vitória de Nicolás Maduro por 51,21% dos votos com 80% das urnas apuradas, a oposição liderada pelo candidato Edmundo González não reconheceu o resultado. Na madrugada desta segunda-feira (29), a líder da oposição María Corina Machado disse que eles tiveram acesso a 40% das atas e que elas indicariam que González venceu.

Lideranças de países ao redor do mundo se dividem entre aquelas que não reconhecem o resultado, como os presidentes do Equador, Daniel Noboa, e da Argentina, Javier Milei; as que não desconhecem o resultado, mas pedem a publicação das atas, como a Colômbia, os Estados Unidos, a União Europeia e o Brasil, e aqueles que parabenizaram Maduro pela vitória, sem contestar a publicação das atas, como Rússia, Bolívia, China e Cuba.

Em discurso após o anúncio da sua vitória, Nicolás Maduro pediu que os países respeitem o resultado eleitoral. "O Poder eleitoral tem um sistema eleitoral de altíssimo nível de confiança, segurança e transparência com 16 auditorias", garantiu, acrescentando que "quando houve o debate em que Donald Trump denunciou que lhe roubaram as eleições nos Estados Unidos, nós não nos metemos nisso".

Questionados pela oposição pelo menos desde 2004, os resultados das eleições venezuelanas costumam ser alvo de desconfiança de parte da comunidade internacional. Porém, nos últimos pleitos, organizações internacionais como o Centro Carter e a Missão de Observação da União Europeia não apontaram fraude no voto e denúncias de fraudes de pleitos passados não foram formalizadas no país. (com Agência Brasil)

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