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Médico francês que retornou de Gaza: 'É semelhante ao Gueto de Varsóvia'

Anestesista militar experiente em zonas de guerra disse ao jornal conservador Le Figaro que nunca viu nada parecido. 'Civis não podem fugir, vagueiam pelas ruas'

Por JORNAL DO BRASIL com Revista Fórum
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Publicado em 19/02/2024 às 16:29

Alterado em 19/02/2024 às 16:29

O médico Raphaël Pitti Foto: Maury Golini

Henrique Rodrigues - O massacre de civis indefesos, sobretudo de mulheres e crianças, promovido pelas IDF (Forças de Defesa de Israel) na Faixa de Gaza há mais de três meses, após os ataques desferidos pelo grupo terrorista Hamas contra alvos civis e militares em território israelense, que já deixaram mais de 28 mil mortos entre a população palestina, foi duramente criticado por um experiente médico francês que atua em zonas de guerra mundo afora.

Raphaël Pitti, um professor e anestesista militar que já realizou cirurgias em diversos ponto de conflito armado, como na ex-Iugoslávia, no Líbano, na Guerra do Golfo (Iraque e Kwait), na Síria e na Ucrânia, em entrevista ao diário conservador parisiense Le Figaro, disse que a situação é similar à encontrada no conhecido Gueto de Varsóvia, localidade na capital da Polônia onde aproximadamente 380 mil judeus foram confinados em condições desumanas pelo exército nazista de Adolf Hitler durante a 2ª Guerra Mundial.

“Nunca vi nada comparável à situação em Gaza. Acho que pode ser semelhante à do Gueto de Varsóvia”, afirmou Pitti em sua entrevista ao jornalão francês de direita. Ele atuou em Gaza com uma equipe de médicos, desta vez numa organização chamada PalMed (Palestine Medical).

“Normalmente os civis conseguem fugir dos combates. Aqui é impossível. A população não tem onde se proteger. Centenas de milhares de pessoas vagueiam pelas ruas em busca de água e comida”, acrescentou ainda o veterano anestesista.

A situação é tão calamitosa que para o profissional quem chega aos hospitais com algum nível de ferimento mais grave, sobretudo na região da cabeça, já está sentenciado à morte, visto que as equipes de atendimento não poderão fazer nada naquelas condições.

“Os feridos mais graves são considerados automaticamente como mortos, principalmente se foram atingidos na cabeça. A maioria morre em poucas horas no corredor, em macas, sem acompanhamento ou sedação, por falta de medicamentos e analgésicos”, disse, numa fala dramática.

Comparações entre os ataques israelenses e situações de genocídio e massacres realizados por nazistas no período da 2ª Guerra Mundial, que teve como alvo dos alemães justamente o povo judeu, têm deixado o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, furioso. Ele e seu staff não admitem paralelos com a situação ocorrida na primeira metade do século passado.

No domingo, foi a vez do presidente Lula dar uma declaração que traçou uma comparação com a tragédia vivida pelos judeus exterminados pelas tropas de Hitler. “Sabe, o que está acontecendo na Faixa de Gaza com o povo palestino, não existe em nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu quando Hitler resolveu matar os judeus”, disse Lula numa entrevista coletiva em Adis Abeba, na Etiópia, após uma visita oficial ao continente africano, no domingo (8).

A reação de Tel Aviv foi duríssima, anunciando num primeiro momento uma convocação do embaixador brasileiro em Israel para receber uma reprimenda pública. Na sequência, o governo de extrema direita de Netanyahu declarou que Lula é “persona non grata” no Estado Judeu a partir de agora, até que peça desculpas por suas palavras.

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