Em Londres, Lula pede liberdade de Julian Assange e critica silêncio da imprensa mundial

Jornalista está preso em Londres desde 2019 por publicar dados secretos sobre os EUA; Lula diz que prisão ameaça liberdade de expressão

Por GABREL MANSUR

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a defender a liberdade do jornalista australiano Julian Assange. Desta vez, na própria Inglaterra, país onde o fundador da WikiLeaks encontra-se detido há mais de quatro anos em uma penitenciária de segurança máxima.

Em entrevista coletiva concedida neste sábado (6), em Londres, onde participou de encontros diplomáticos e da coroação do rei Charles III, o petista foi questionado por uma repórter sobre a prisão de Assange. Ele aproveitou para cobrar um posicionamento mais duro da imprensa mundial a respeito do que ele considera uma perseguição judicial protagonizada pelos Estados Unidos.

"É uma vergonha que um jornalista que denunciou as falcatruas de um Estado contra outro esteja preso, condenado a morrer em uma cadeia, e a gente não fazer nada para ajudar. A gente briga e fala em liberdade de expressão e não faz nada. O cara [Assange] está preso porque denunciou as falcatruas. O cara não denunciou nada vulgar. O cara denunciou que um Estado estava vigiando os outros. E isso virou crime contra o jornalista? E a imprensa não se mexe na defesa desse jornalista. Eu sinceramente não consigo entender", declarou o presidente do Brasil.

Apesar de fazer a defesa, Lula afirmou que Assange não foi tema da reunião que teve com o primeiro-ministro do Reino Unido, Rishi Sunak, nessa sexta-feira. “Eu até peço perdão. Quando chegar ao Brasil, vou ligar para o primeiro-ministro, porque esse foi um assunto que esqueci de falar com ele”, disse. O fundador do Wikileaks está na prisão de Belmarsh, a poucos quilômetros de onde Lula respondia às perguntas da imprensa.

"Vou falar inclusive na frente dos jornalistas. É uma vergonha que um jornalista [Assange] esteja preso, condenado a morrer na cadeia, e a gente não fazer nada para libertar", prosseguiu o presidente, que defendeu um "movimento mundial da imprensa" em defesa da "liberdade de denunciar".

Esta não é a primeira vez que Lula sai em defesa de Julian Assange. No ano passado, durante um evento do PT em Alagoas, o presidente sugeriu que o criador do WikiLeaks deveria receber um prêmio Nobel.

“Esse cidadão deveria estar recebendo um prêmio Nobel, esse cidadão deveria estar recebendo Oscar de decência e coragem porque denunciou ao planeta um país espionando outro país. E os Estados Unidos ainda teve coragem de pedir desculpas à Angela Merkel, mas não teve coragem ou não sentiu necessidade de pedir desculpas ao Brasil”, afirmou na ocasião.

Lula ainda disse esperar uma postura mais “combativa” dos órgãos de mídia. “A imprensa, que defende a liberdade de imprensa, não faz um movimento para libertar esse cidadão”, afirmou. “Precisamos colocar nossas teorias em prática de vez em quando.”

Entenda o caso

Em abril de 2019, o fundador do Wikileaks Julian Assange foi preso em Londres, onde aguarda possível extradição para os Estados Unidos. No país, ele pode ser condenado a uma pena de até 175 anos.

A partir de 2010, o australiano começou a publicar informações confidenciais sobre os Estados Unidos, como fotos, vídeos e documentos do Pentágono, que revelavam crimes de guerra cometidos pelos militares estadunidenses e práticas de tortura contra detentos da prisão de Guantánamo, base militar dos Estados Unidos em Cuba. O governo norte-americano estima que foram 700 mil documentos.

O material, publicado no WikiLeaks e em outros veículos, como o britânico Guardian e norte-americano New York Times, também continha dados sobre as guerras do Afeganistão e do Iraque, além de outras informações diplomáticas e de operações militares. Também relatava informações sobre o ataque aéreo a Bagdá, de julho de 2007. Parte dos documentos eram sobre supostos abusos cometidos pelas Forças Armadas norte-americanas.

Julian Assange foi preso em Londres em 2019 depois de passar sete anos abrigado na embaixada local do Equador. Ele tentava evitar ser preso e extraditado para a Suécia, país onde era acusado por dois casos de estupro. Os dois mandados de prisão foram expedidos pela Justiça da Suécia um mês depois da divulgação de documentos secretos do Exército dos EUA sobre a guerra do Afeganistão. O inquérito, aliás, foi posteriormente arquivado.

Os vazamentos expuseram abusos de direitos humanos e espionagem de líderes de outros países. Se julgado nos Estados Unidos, poderá ser condenado a até 175 anos de prisão. Enquanto não é julgado, ele permanece na prisão preventiva de Belmarsh. Desde que foi encarcerado, e antes disso, Assange vem recebendo solidariedade de políticos, ativistas e entidades de todo o mundo.

A campanha, porém, não sensibiliza as autoridades norte-americanas, que seguem dispostas a punir o jornalista.

Linha do tempo

2006: Assange funda o WikiLeaks e começa a publicar vazamentos de notícias de fontes anônimas;

08/2010: um promotor sueco emite um mandado de prisão depois de duas mulheres suecas acusarem Assange de estupro e abuso sexual em alegações separadas;

11/2010: WikiLeaks começa a divulgar telegramas diplomáticos adquiridos de uma fonte anônima, levando o Departamento de Justiça dos EUA a abrir uma investigação. A fonte mais tarde é descoberta como sendo Chelsea Manning. A Suécia também emite um mandado de prisão internacional para Assange;

12/2010: Assange se rende à polícia britânica. Os tribunais consideram que ele deve pagar fiança;

05/2012: a Suprema Corte britânica decide a favor do retorno de Assange à Suécia, mas seus advogados pedem um adiamento;

08/2012: Assange recebe asilo na Embaixada do Equador em Londres, que cita preocupação com abusos de direitos humanos se ele for extraditado para a Suécia;

02/2016: o Grupo de Trabalho das Nações Unidas sobre Detenção Arbitrária conclui que Assange foi “detido arbitrariamente“ pela Suécia e pelo Reino Unido desde dezembro de 2010 e pede que ambos os governos acabem com sua “privação de liberdade”;

04/2017: o ex-diretor da CIA Mike Pompeo descreve o WikiLeaks como um "serviço de inteligência hostil não estatal" que constitui uma ameaça à segurança nacional dos EUA;

05/2017: promotores suecos encerram sua investigação de sete anos sobre a alegação de estupro contra Assange;

12/2017: Equador concede cidadania a Assange em uma tentativa fracassada de lhe dar imunidade diplomática;

02/2018: a juíza britânica Emma Arbuthnot diz que o país não vai retirar as acusações contra Assange depois que ele burlou a sentença de pagamento de fiança em 2012 ao buscar asilo na Embaixada do Equador;

04/04/2019: uma semana antes de Assange ser preso, o presidente equatoriano diz que Assange “violou o acordo que fizemos com ele e seu advogado muitas vezes”. As informações são do Washington Post;

11/04/2019: Assange é preso sob um mandado de extradição dos EUA depois que o Equador retira sua oferta de asilo. Ele é considerado culpado de não pagar fiança determinada pela Justiça britânica;

01/05/2019: Assange foi condenado a quase um ano de prisão no Reino Unido;

23/05/2019: EUA acusam Assange sobre a Lei de Espionagem. Ele foi indiciado por 18 acusações. O caso levanta questões sobre a Primeira Emenda, que garante a liberdade de expressão nos EUA;

11/06/2019: EUA entram com um pedido de extradição contra Assange. Pedido foi rejeitado em janeiro de 2021 por risco de Assange cometer suicídio;

28/10/2021: EUA tentam de novo obter extradição de Julian Assange. O governo norte-americano negou que a saúde mental de Assange seja frágil a ponto de ele não resistir ao sistema judiciário dos EUA;

20/04/2022: Justiça britânica emite ordem de extradição de Assange para os EUA. A medida ainda precisa do aval da ministra do Interior, Priti Patell;

17/06/2022: O Reino Unido aprova a extradição do jornalista para os Estados Unidos. Cabe recurso, mas se a determinação for mantida, Assange deve ser enviado dentro de 28 dias.

*Com Poder 360