Calendário do futebol brasileiro, por que ele é preocupante?

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Foto: Reuters/Silvia Izquierdo
Credit...Foto: Reuters/Silvia Izquierdo

Enquanto os grandes sofrem com maratonas de jogos, os clubes menores sequer possuem calendário

Na última temporada, o Palmeiras foi a equipe que mais jogou no Brasil, ao todo foram 77 jogos. Isso aconteceu por conta do insano calendário do futebol brasileiro, agravado pela pandemia do novo coronavírus.

O calendário do futebol palmeirense em 2020 teve início no dia 15 de janeiro, com o jogo contra o Atlético Nacional (COL), pela Flórida Cup, um torneio extra oficial.

Considerando competições oficiais, a primeira partida foi um pouco depois, no dia 22 de janeiro, diante do Ituano, pelo Campeonato Paulista.

A estreia na Libertadores ocorreu após oito rodadas do Estadual, no dia 4 de março, contra o Tigre (ARG). Depois disso, mais três jogos antes da inesperada pausa devido a pandemia de covid-19.

Antes da paralisação, não havia nenhuma anormalidade no calendário do futebol brasileiro, ele já é “inchado” por natureza.

Em março, abril, maio, junho e julho, os cinco meses de paralisação, deveriam acontecer partidas do Paulista, Libertadores, Copa do Brasil e Brasileirão.

Mas a bola voltou a rolar para o Palmeiras somente no dia 22 de julho, contra o Corinthians, em jogo válido pelo Paulistão. Depois disso, mais 5 partidas até a decisão, que aconteceu contra o Corinthians, em 5 de agosto.

Ou seja, o Paulistão, que originalmente deveria terminar no primeiro semestre, acabou somente na segunda metade de 2020. Assim como o Brasileirão, que começaria no segundo trimestre.

Com isso, todos os jogos do período tiveram de ser encaixados no restante de 2020 e até março de 2021.

Termina uma, começa outra, sem respiro
A temporada 2021 teve início no dia 27 de fevereiro. Mas a de 2020 terminou oficialmente no dia 7 de março, com o jogo da final da Copa do Brasil. As equipes e jogadores sequer conseguiram descansar.

A grande solução era ajustar o calendário para diminuir a quantidade de jogos. Mas as federações, juntamente com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), decidiram seguir com o formato tradicional.

A pausa forçada pela pandemia da covid-19 era o momento perfeito para todos sentarem à mesa e procurarem soluções.

O fim dos Estaduais
E quais seriam essas soluções? Uma das principais é reduzir o formato dos campeonatos estaduais e, consequentemente, diminuir a participação dos times grandes nesses torneios.

O jornalista Juca Kfouri acredita que os Estaduais devem acontecer durante todo o ano, mas somente para equipes sem divisão nacional. O que ajudaria a reduzir os jogos dos grandes, e daria um calendário aos menores.

Já Menon, também jornalista, apoia a participação dos grandes apenas nas fases finais do torneio.

Assim, clubes de maior expressão poderiam focar nas principais competições, Brasileirão, Copa do Brasil, Libertadores e Sul-Americana, e ainda reduzir o número de partidas na temporada. Evitando partidas quase que diárias.

O calendário do futebol em 2021 está sobrecarregado. O fato das duas temporadas terem sido emendadas agravou o problema.

Além disso, surtos de covid-19 assolaram parte dos clubes brasileiros, causando diversos desfalques em elencos já cansados pela maratona de jogos.

Uns têm muito, outros quase nada
Enquanto isso, a maioria dos clubes menores tem apenas os Estaduais, Regionais e, no melhor dos casos, a Copa do Brasil.

Para deixar claro, vamos utilizar a temporada 2019 do Santo André-SP como exemplo. Naquela ocasião, não houve pandemia para atrapalhar o calendário.

O Santo André estava sem divisão nacional, ou seja, não participou das Séries A, B, C ou D. Assim, o clube jogaria apenas o Campeonato Paulista, e de acordo com o desempenho, a Copa Paulista.

E foi o que aconteceu, graças a boa campanha no Paulistão. Caso contrário, o clube jogaria em apenas 4 meses do ano. Com a Copa, também jogou entre junho e novembro.

A Copa Paulista, criada há mais de 30 anos, mas que é disputada anualmente desde 2003, foi elaborada para aumentar o calendário dos times paulistas menores, aqueles que não participam de nenhuma divisão do Brasileirão.

Calendário do futebol brasileiro igual ao europeu
De acordo com jornalistas, como Benjamin Back, Juca Kfouri e Mauro Cezar Pereira, uma boa solução seria adotar o mesmo formato utilizado no futebol europeu, começando a temporada na transição do primeiro ao segundo semestre de cada ano.

Seguir o mesmo molde tem como um dos principais benefícios a fuga da janela de transferências europeia, que acontece durante a temporada brasileira, e costuma desfalcar os clubes.

Os estrangeiros sempre recorrem ao nosso país em busca de jovens promessas. Além de ser o único país pentacampeão do mundo, o Brasil é conhecido mundialmente por ser um celeiro de craques,

Em muitas vezes, o financeiro fala mais alto, e os garotos, que seriam lapidados aqui, saem do Brasil e desenvolvem o seu futebol nos gramados mundo afora.

Porém, não haverá sentido se o calendário do futebol brasileiro seguir o molde europeu e a Conmebol, que movimentam as casas de apostas esportivas, mantendo os padrões atuais.

A saída é reestruturar o nosso futebol e torná-lo forte tecnicamente e financeiramente.

Nelson Junior é palmeirense, apaixonado por futebol, e já jogou pôrquer on-line com Neymar