Nos Estados Unidos, existem mais de três mil capelães para atender às necessidades emocionais e espirituais das tropas. A grande maioria cristã, alguns judeus ou muçulmanos, outros poucos são budistas e hindus. Mas um ateu? Por mais estranho que pareça, grupos estão pressionando a indicação de um ateu para a capelania, esperando dar voz ao que dizem ser uma grande população de céticos entre os militares.
Entrar para a capelania militar faz parte de uma campanha ampla de ateus para ganhar aceitação oficial das Forças Armadas, reconhecimento que facilitaria arrecadação de fundos e encontros nas bases, assegurando que capelães – religiosos ou ateus – distribuam folhetos, divulguem eventos e os defendam junto aos comandantes.
Só que obter a indicação de um capelão ateu exige o apoio de capelães de alto escalão, e muitos deles não acreditam que este seja um grupo de fé. Jason Torpy, ex-capitão do Exército, e que preside a Associação Militar de Ateus e Livres-pensadores, afirma que capelães céticos fariam tudo que os capelães religiosos fazem, como aconselhar a tropa e ajudá-la a seguir sua fé.
– O ateísmo desempenha o mesmo papel para os ateus que o cristianismo para cristãos e o judaísmo para judeus. Responde questões de grande interesse e direciona nossos valores – defende Torpy, que foi orientado a se reunir com os chefes dos capelães das Forças Armadas para discutir a proposta, mas eles ainda não responderam.
Enquanto isso, ateus do Forte Bragg, na Califórnia, chamado Ateus Militares e Humanistas Seculares (Mash, na sigla em inglês), pediu que o Exército indicasse um líder leigo – membros da Igreja Católica não ordenados – para os ateus da base. O grupo do Mash no Forte Campbell, em Kentucky, quer fazer o mesmo, bem como os ateus da Base da Força Aérea MacDill, na Flórida.
Exército tem mais ateus que judeus e muçulmanos
Os líderes ateus reconhecem a contradição aparente de céticos procurarem virar capelães. Contudo, eles afirmam acreditar que a aprovação da capelania vai encorajar os ateus que se preocupam em serem relegados ao ostracismo em função de suas visões de mundo.
Estatísticas do Departamento da Defesa mostram que cerca de 9.400 dos 1,4 milhão de militares na ativa se identificam como ateus ou agnósticos, fazendo deles um subgrupo maior do que o de judeus, muçulmanos, hindus ou budistas. Todavia, os líderes ateus sustentam que esses números podem ser ainda mais altos, pois existem muitos céticos entre os 285 mil homens na ativa que não afirmam ter preferência religiosa.
Os ateus dizem que a pesquisa e o treinamento estão cheios de palavras e códigos religiosos que sugerem a existência de Deus ou vida após a morte. O Exército retruca assegurando que a intenção do programa é determinar se o soldado tem “um conjunto forte de crenças, princípios ou valores” que lhe darão suporte em meio à adversidade – e não medir a religiosidade.
Grupos ateístas entre os militares não são novidade, mas em algumas bases eles se organizaram melhor e passaram a ter mais voz nos últimos anos. No semestre passado, os ateus do Forte Bragg contestaram um evento da Associação Evangélica Billy Graham, chamado Agito no Forte. O comando da base, a pedido de seus capelães, deu dinheiro e mão-de-obra para o evento, além de ceder a praça de armas.
O sargento de comunicação Justin Griffith, argumentou que o evento era uma plataforma patrocinada pelo Exército para a organização Graham converter soldados. O comandante do posto, coronel Stephen Sicinski, negou a acusação afirmando que os soldados não foram pressionados a comparecer. Em entrevista recente, ele declarou que o evento visava incentivar a moral e a fé.
Em resposta, Griffith recrutou um elenco de astros de músicos e oradores ateus, como o escritor Richard Dawkins, para comandar um evento secular, possivelmente no próximo semestre. Ele o chama de Agito Além da Crença, e pediu que Sicinski fornecesse recursos similares aos dados ao Agito no Forte.
Sicinski recusou, alegando que o evento não atrairia pessoas o bastante para justificar o uso da praça de armas e que o dinheiro do dízimo religioso, que ajudou a financiar o Agito no Forte, não pode ser gasto assim.